Rússia: Anfitriões da Copa aceitam melhor traições do que casais gays

Alerta do Itamaraty à população LGBT não foi à toa: russos têm leis contrárias aos homossexuais e mentalidade conservadora para direitos individuais


Quando se trata de LGBTs, a Rússia volta aos tempos de União Soviética (homossexualidade só deixou de ser considerado crime em 1993, com o fim da URSS): pouco, bem pouco moderna. Não foi à toa a recomendação do Itamaraty, na semana passada, para torcedores brasileiros evitarem demonstrações homoafetivas no país-sede da Copa do Mundo. Russos não veem casais gays com bons olhos e a lei estimula esse pensamento.

No fim do ano passado, o Levada Center, uma organização não governamental de lá, perguntou a 1,6 mil russos se eles condenavam ou não o amor entre pessoas do mesmo sexo. E 83% deles disseram que isso era sempre (69%) ou quase sempre (14%) algo repreensível. Só 7% manifestaram total apoio aos casais gays (o restante se dividiu entre “prefiro não opinar” e “tem que ver caso a caso”).

Só para comparar, a mesma pesquisa levantou outras questões, como infidelidade. Entre os entrevistados, 43% disseram não tolerar nunca casos extraconjugais – já outros 25% afirmaram que “quase sempre isso deve ser repreendido”. Ou seja: essas pessoas se mostram mais dispostas a aceitar melhor traições do que a existência de casais homoafetivos.

Outras pesquisas apontam a mesma mentalidade. A Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais (ILGA, em inglês) perguntou a pessoas do mundo todo sobre questões LGBTs. E a Rússia, junto à Ucrânia, se mostrou o país menos tolerante da Europa. 45% deles confirmaram que se sentiriam desconfortáveis se seus vizinhos fossem gays ou lésbicas – só 15% dos brasileiros pensam da mesma forma.

Eles têm até uma explicação para pensarem assim: homossexualidade é coisa do ocidente. Metade dos entrevistados concordou com a frase “desejo pelo mesmo sexo é um fenômeno do mundo ocidental”. A Rússia mesmo não tem nada a ver com isso. E essa moda precisa passar longe do país do presidente Vladimir Putin.

Nem falem sobre isso

Evdokia Romanova teve de pagar 871 dólares ao governo russo no ano passado. Em outubro, o tribunal de Samara, no sudoeste da Rússia, condenou a jovem por fazer “propaganda de relações sexuais não tradicionais entre menores através da internet”. Segundo relatório da Anistia Internacional, nos dois anos anteriores, a jovem havia compartilhado em suas redes sociais links do site “Coalização da Juventude por Direitos Sexuais e Reprodutivos”. E fim. Esse foi o crime de Evdokia.

Isso porque, na Rússia, “promover relações sexuais não tradicionais entre menores” e “promover uma imagem distorcida da equivalência social de relações tradicionais e não tradicionais” se tornou crime em 2013 – na controversa lei contrária à “propagada gay”. Na prática, debater ou demonstrar afeto homoafetivo em público pode ser passível de punição.

É uma tentativa de apagar a existência dessas pessoas. Até se elas insistirem em existir em filmes ou seriados. No ano passado, o governo analisou banir o musical A bela e a Fera, da Disney, por ter cenas gays entre dois personagens.

Tamanho conservadorismo alçou os anfitriões da Copa do Mundo de 2018 ao posto de quinto pior lugar da Europa para a população LGBT viver. O Índice Rainbow Europe (Arco-íris da Europa, em tradução livre), da ILGA, avaliou leis e direitos LGBTs em 49 países – a Rússia só ficou à frente do Azerbaijão, Armênia, Turquia e Mônaco.

Com o apoio da lei, grupos homofóbicos se sentiram no direito de sair do armário. Entre os anos de 2016 e 2017, foram registradas 366 casos de discriminação à população, de acordo com a ONG LGBT Network Rússia. Mas é um número subestimado, já que a maioria da população tem poucas informações sobre como denunciar esses abusos.

Segundo nota da Human Rights Watch da Rússia, nos últimos dois anos, os casos aumentaram. “Aconteceu uma legalização da discriminação baseada na orientação sexual. Isso coincidiu com crescimento de retóricas homofóbicas na mídia estatal e de violência no país”, explicam. “Ainda que a lei russa dê ferramentas às agências para processar tipos de violência homofóbicas, não parece haver vontade de fazê-lo e não há políticas ou instruções das lideranças para levar a homofobia a sério”, conclui.

A Fifa declarou que ficará atenta a qualquer tipo de ato discriminatório durante a Copa do Mundo. Ainda assim, em um país tão marcado pela homofobia, a solução mais segura parece mesmo deixar o amor em segundo plano.

(Carol Castro)

Fonte: CartaCapital

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