BRASA QUENTE: MANO BROWN FALA DE SONHO FUNK, HISTÓRIA DO RAP E DE ARTE ANTE BOLSONARO

Idolatrado por multidões e considerado o grande intérprete do sentimento do povo da periferia, o rapper relembra o nascimento do Racionais MC’s e mira o futuro: “Vamos lutar pelo o que a gente acredita”

São Paulo — Acostumado a receber convidados toda quinta-feira à noite, o estúdio da Rádio Brasil Atual estava particularmente superlotado no dia da Proclamação da República. A data marcou também o aniversário de um ano no ar do programa Boogie in Braza, dedicado ao rap nacional e internacional e as diversas vertentes da black music. Para celebrar, o convidado foi um ícone brasileiro do estilo: Pedro Paulo Soares Pereira, o Mano Brown.
Inicialmente um pouco fechado, conforme ia rolando o som do programa comandado pelos apresentadores Filiph Neo e DJ Claytão, o rosto mais popular do grupo Racionais MC’s ia ficando mais relaxado, descontraído.
Não tardou a falar com orgulho do processo de criação do filho mais novo, o álbum Boogie Naipe, o primeiro em carreira solo, lançado em 2016. Resultado de anos de composição com artistas parceiros, suas músicas têm uma “pegada mais romântica”, característica oposta a sonoridade e as letras que transformaram o Racionais no mais importante grupo do rap nacional ao contar as histórias de opressão e violência sofridas pelo povo pobre e negro da periferia paulistana.
Brown conta que inicialmente o álbum não foi bem recebido por seus fãs. O pessoal estranhou. Em pouco tempo, porém, o estranhamento foi dando lugar à curtição do ritmo, cheio de suíngue. Embora para os ouvidos Boogie Naipe seja muito diferente de Racionais, Mano Brown explica que, na verdade, o funk e a soul music americana dos anos de 1970 sempre estiveram na essência da inspiração dos Racionais.
“O meu sonho era um sonho funk, era tocar saxofone…”, diz Mano Brown. “Eu precisava que as pessoas entendessem que não era Racionais, mas Racionais veio daqui. Não haveria Racionais sem isso daqui”, explica.
Para ele, ainda que houvesse alguns poucos artistas fazendo rap no Brasil dos anos de 1980, como Thaíde, Black Júnior e Pepeu, o estilo se desenvolveu de fato no país na década seguinte, praticamente sem assimilar o que era feito no exterior até ali. “Muita coisa do universo do hip-hop dos anos 80 passou batido pelo Brasil. Toda a geração dos anos 80 virou antiga muito rápido. Se virou a mesa. Houve a época de cantar de paletó e gravata, e o rap brasileiro não pegou essa etapa.”

As origens

Em pouco mais de duas horas de programa, o Boogie in Braza de aniversário teve, obviamente, muita música. E muita história. Mano Brown voltou no tempo para contar o nascimento do rap brasileiro, época em que a estação de metrô São Bento, no centro da cidade, era o ponto de encontro de 30 ou 40 pessoas desfilando um novo estilo no país, onde só ali se ouvia electro-funk e Public Enemy.
Ao mesmo tempo, havia o Clube do Rap, onde ele e Ice Blue, já amigos, conheceram os outros dois parceiros do que viria a ser os Racionais, Edi Rock e KL Jay — ambos uma dupla de DJ’s que se apresentava como “Edi Night e KL Night”. “Eles eram muito criativos…”, disse, aos risos, Mano Brown. “Vão ficar bravos comigo por ter contado o nome deles”, emendou.
“Um ano naquela época valia por cinco, a informação demorava para chegar. Os caras (Edi Rock e KL Jay) eram dois DJ’s e nós, dois MC’s sem DJ’s. Fomos agregados, os caras nos aceitaram”, afirmou. Mano Brown diz que o viés político das letras coincidiu com o fim da ditadura e a abertura democrática, em 1985. Ainda assim, para quem hoje vê o Racionais MC’s ser um grupo idolatrado, o começo foi o oposto. A periferia não aceitou. Havia restrição ao estilo que nascia.
“Lembro da primeira vez que ouvi Racionais na rádio. A primeira pessoa que gostou foi minha cunhada… era uma luta conquistar as pessoas próximas”, afirma Brown. Naqueles primeiros anos da década de 1990, ele saia de sua casa no Capão Redondo e ouvia as músicas “Homem na estrada” e “Fim de semana no parque” ecoar pela vizinhança. A alegria de escutar a própria música pelo bairro causava uma confusão de sentimentos.
“Eu ouvia em tudo que é lado, mas tava duro, sem grana, com o carro quebrado. A gente já era famoso, não na mídia, mas no submundo, e era um submundo gigante”, recorda Brown. Para ele, escrever é um esforço, uma dedicação de horas, dias, semanas debruçado sobre a mesma letra. Um mês se for preciso para alcançar o que acredita ser a letra certa.
“Dentro da minha obra, fui vendo que tinha que melhorar pra entrar no coração das pessoas, não só no ouvido. Tinham músicas que não entravam no coração das pessoas. Os caras que eu queria que ouvissem minha música, não se comoviam com a violência que eu cantava. Eles já conheciam isso, os caras se comoviam com outra coisa”, analisa Mano Brown.

Sobrevivendo a própria obra

Lançado em 1997, o álbum “Sobrevivendo no inferno” é um marco não só na história dos Racionais como na própria história do rap brasileiro. É o mais vendido do grupo, com 1,5 milhão de cópias, e eleito pela revista Rolling Stone o 14º melhor disco brasileiro. Em 2015, o então prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), presenteou o papa Francisco com o álbum. Este ano, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) incluiu a obra como leitura obrigatória no vestibular a partir de 2020, classificado na categoria de poesia.
Sincero, Brown diz que jamais o grupo teve uma pretensão desse nível quando o álbum foi lançado. As músicas foram compostas por volta de 1995, quando ele vivia na Cohab, no Capão Redondo, um lugar que para ele combinava o fácil acesso com a pouca segurança, a violência e o crescimento do uso do crack na periferia.
“Quando falei de mim, acabei falando de milhões de pessoa, mas falei de mim”, explica. Se por um lado o álbum elevou o grupo a um patamar de reconhecimento nunca imaginado, por outro trouxe para os Racionais um peso difícil de carregar. “Quando terminava de cantar, era pesado. Da forma como o disco terminava, parecia que a solução era todo mundo se matar. Aquele disco era uma coisa que não tinha solução. Foi um disco de trevas, um exorcismo. Aconteceu de tudo na nossa vida. No fim, sobrevivemos ao disco ‘Sobrevivendo no inferno’”, afirma Mano Brown.
“Fórmula Mágica da Paz”, “Mágico de Oz” e “Diário de um Detento” (baseado na descrição do preso Jocenir, que sobrevieu ao massacre do Carandiru, em 1992), são alguns dos grandes sucessos do álbum.

Periferia, conservadorismo e Bolsonaro

Em março de 2017, Mano Brown esteve no mesmo estúdio da Rádio Brasil Atual, na ocasião para participar do programa Hora do Rango. Naqueles dias, João Doria (PSDB) ainda começava sua curta trajetória na Prefeitura de São Paulo depois de ter sido eleito no primeiro turno da eleição do ano anterior. No Capão Redondo, o tucano teve 48% dos votos.
Intérprete contumaz do sentimento da periferia, Brown já apontava para o conservadorismo que tomava conta da população mais pobre. Um posicionamento que um ano e meio depois colaborou de modo decisivo para a eleição de Jair Bolsonaro (PSL), um político de extrema-direita com discurso racista, homofóbico e machista.
“Quem votou no Doria, pensa como ele. O cara que mora em uma comunidade e vota em um cara aristocrata, rico de raiz, que nunca sofreu nada, ele se sente como o Doria. No governo Lula, a pessoa comprou um carro, uma moto, um celular caro, agora ela quer trancar tudo com um cadeado e colocar a polícia na porta para defender. Eu converso com as pessoas nas ruas. Tem quem diga que não leva o filho no CEU (Centro Educacional Unificado) porque é onde estão as ‘piores crianças’. É a mentalidade elitista do brasileiro”, analisou Brown em março de 2017.
Agora, com Bolsonaro eleito presidente da República, o rapper acredita que a arte terá que cumprir o papel da água, entrando por baixo de tudo sem ser percebida para enfrentar os anos que virão.
“Ele foi beneficiado por uma nova situação, com um ex-presidente preso e uma ex-presidenta deposta. Ele chegou num momento em que o Brasil está fragilizado, como um corpo doente”, analisa Mano Brown. “Dois anos atrás ninguém levou a sério que ele pudesse ganhar. Um cara que falava mal de preto, de índio, de gay… E o cara ganhou, e ganhou com o apoio de uma parcela grande da sociedade. Agora… a gente não vai torcer pra piorar, porque se piorar, piora para os nossos. Vamos ter que continuar fazendo nossa parte. Ele ganhou, foi eleito pelo povo, democracia é isso. Acabou. Vamos a nova fase, vamos lutar pelo o que a gente acredita, vamos trabalhar.”
Mano Brown diz que Boogie Napie terá sequência, talvez como um álbum parte 2. Conta estar compondo, e abre um sorriso de satisfação ao falar das novas canções. “Eu tenho grandes planos”, diz o homem de 48 anos, há décadas dedicado a retratar em música a realidade do povo pobre e periférico do Brasil.
Fonte: Rede Brasil Atual – por Luciano Velleda, da RBA

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