Com a manobra do pedido de recuperação judicial, a bilionária famiglia Civita deu calote em mais de mil profissionais demitidos pouco antes. Agora, sob nova direção, a tendência é que vários títulos da editora sejam extintos e uma nova leva de trabalhadores seja demitida.

Nesta quinta-feira (20), finalmente o Grupo Abril, que sacaneou centenas de trabalhadores ao pedir recuperação judicial em agosto passado, foi vendido no mercado das almas. O empresário Fábio Carvalho, famoso por comprar empresas falidas para promover drásticas reestruturações, adquiriu o velho império midiático, que edita a abjeta revista Veja e vários outros títulos. “A história da Abril está intimamente relacionada com os grandes eventos políticos e econômicos que marcaram a história do Brasil nas últimas décadas. A capacidade e importância jornalística do Grupo é inegável. Não temos dúvida dos méritos e qualidades que permeiam as companhias do Grupo e que serão os pilares sobre os quais nos apoiaremos para superar os grandes desafios que se apresentam”, bravateou o novo dono da empresa ao anunciar a aquisição.

A conversa fiada, típica da cloaca patronal, não deve iludir ninguém – nem os funcionários do Grupo Abril nem os críticos da Veja. Com a manobra do pedido de recuperação judicial, a bilionária famiglia Civita deu calote em mais de mil profissionais demitidos pouco antes. Agora, sob nova direção, a tendência é que vários títulos da editora sejam extintos e uma nova leva de trabalhadores seja demitida. Também ainda não está definido como será acertado o passivo trabalhista assumido pelo sinistro Fábio Carvalho. O empresário tem participações em empresas de vários setores que, juntas, faturam mais de R$ 4 bilhões por ano e empregam mais de 46 mil pessoas. Entre seus investimentos, estão as Lojas Leader e a Casa & Vídeo.

O valor da venda do Grupo Abril foi simbólico, de R$ 100 mil. Mas o novo dono assumiu uma dívida de R$ 1,6 bilhão, sendo dois terços junto aos bancos Itaú, Bradesco e Santander. A expectativa é de que o negócio seja concluído apenas em fevereiro, quando ficará melhor definido o futuro dos trabalhadores e dos títulos da editora. Giancarlo Civita, o herdeiro picareta do Grupo Abril, garante que “Fábio Carvalho reúne as características de empreendedor e a visão de negócio que os novos tempos exigem. Desejamos a ele muito sucesso”. Estes votos não devem tranquilizar em nada os profissionais da empresa, inclusive aqueles jornalistas servis que se acostumaram a chamar patrão de companheiro.

Como prevê Fernando Brito, do imperdível blog Tijolaço, a tendência é que o antigo império midiático acabe na prática. “Veja continuará a ter seu lugar nas salas de espera dos consultórios… Mas é apenas questão de tempo para que seus títulos sejam encerrados ou vendidos, ‘avulsos’ ou em lotes. Ricos, muito ricos, os netos livram-se da carcaça da empresa que, durante os últimos 30 anos deitou regras sobre como o Brasil deveria ser dirigido e como deveriam proceder seus governantes, liquidou o império editorial criado por Victor e Roberto Civita. Saem fazendo aquilo que dizem ser o horror dos horrores quando se trata de países, mas acham natural quando acontece com empresas: um calote de R$ 1,6 bilhão, em troca de pagarem apenas 8% do que devem, ainda assim a perder de vista, em 18 anos”.

Em tempo: No início de dezembro, a Justiça do Trabalho de São Paulo reiterou a ordem para a reintegração de mais de mil funcionários demitidos pelo Grupo Abril desde julho de 2017. Foi dado um prazo de 30 dias para o cumprimento da sentença. Ao que tudo indica, nada será feito. Anteriormente, em setembro, o juiz Eduardo Matiota, da 61ª Vara do Trabalho, já havia tomado a mesma decisão, mas a empresa apresentou embargos de declaração e anulou na prática a readmissão dos sofridos descartados. Segundo balanço parcial, as dívidas trabalhistas do Grupo Abril, que incluem débitos com jornalistas, gráficos, pessoal administrativo, entre outros profissionais, estão em cerca de R$ 90 milhões.