VOTOS DE NATAL

É Natal e a esperança está em alta, diz a pesquisa Datafolha publicada no sábado.

Por que é Natal, desejamos o bom e o melhor para os mais próximos, os distantes e mesmo àqueles de quem queremos distância, por pensarem e sentirem de forma oposta à nossa.

Porque é Natal, valem também os votos coletivos, para o Brasil e seu povo que têm pela frente um tempo de mudanças.

A maioria está esperançosa mas uma parte está apreensiva com tantas interrogações, mas os votos políticos de Natal que seguem estão além da lógica e das probabilidades da política. São votos e não análise.

Porque é Natal, devemos desejar sinceramente que o Brasil seja politicamente pacificado, o que não significa a adesão de uma de suas metades à outra. O que precisamos é de reaprender a conviver na divergência, recuperando o sentido perdido da alteridade. O outro tem que deixar ser adversário ou inimigo.

Que a pluralidade religiosa prevaleça sempre, como prevalece no Natal: mesmo os não-cristão fazem do dia de hoje um momento de boa vontade.

Que todas as religiões continuem sendo respeitadas no Brasil, como sempre foi, mas que se mantenham longe da política e do Estado. A igreja não pode governar, futura ministra Damares Alves.

Porque é Natal, tentemos colocar o ceticismo de lado e torcer para que o futuro governo de Jair Bolsonaro produza o melhor para o Brasil.

Que ele não leve adiante as palavras ásperas que disse na campanha e mesmo depois de eleito, sobre prender ou exilar adversários da esquerda.

Que desista das propostas que podem ser nefastas ao Brasil, como aquelas, na política externa, que podem comprometer relações comerciais e políticas importantes para o Brasil, como os países árabes e a China.

Que ele consiga superar seu rancor por Venezuela e Cuba, preservando a tradição brasileira, de respeitar a autodeterminação dos povos.

Que o presidente eleito, depois de empossado, troque sua retórica ideológica pelo efetivo compromisso de restaurar o desenvolvimento e o crescimento, tomando medidas eficientes para reduzir a pobreza e a nossa vergonhosa desigualdade.

Que se realize a expectativa dos 65% que, segundo a pesquisa Datafolha, acreditam que a economia vai melhorar. E a dos 47% para quem o desemprego vai cair.

A compaixão pelos pobres, que todos gostam de externar no Natal, nem que seja doando as sobras da ceia farta, não pode ser coisa do momento.

Aqui em Brasília os pobres vêm das cidades do entorno e montam barracas de lona preta nos gramados verdes, para ganhar os restos de festa na cidade com a mais alta renda per capita do país.

A compaixão verdadeira, quando os governantes a têm, precisa ser convertida em políticas públicas com vistas a uma sociedade mais decente, menos desigual.

Houve erros nos governos petistas mas houve efetivo empenho neste sentido, que Lula traduzia simbolicamente no café da manhã natalino que tomava com os que trabalham no mais humilde dos ofícios, os catadores de papel e de lixo reciclável. Manteve o rito mesmo após deixar a presidência, hábito interrompido pela prisão que o Brasil naturalizou, a Justiça homologa mas o mundo não compreende.

E por falar na oposição, que ela também seja firme no seu papel de fiscalizar e controlar os que governam, mas não descuide de ser propositiva, de buscar contribuir para os resultados, sem que isso signifique adesismo ou capitulação.

O Brasil vai precisar de uma boa oposição, porque o novo governo chegará cheio de si, disposto a implementar na marra uma agenda que não foi verdadeiramente discutida nas urnas, exceto em temas culturais-comportamentais e na questão das armas.

Um voto aqui para que as armas não proliferem, para que o uso delas não seja banalizado.

O número de assassinatos no Brasil permitiu que o embaixador da França nos causasse vergonha comparando os números.

O espaço é curto para tantas demandas que requerem votos natalinos.

Mas, por fim, que a democracia e a liberdade continuem de asas abertas sobre nós nos tempos novos.

Por Tereza Cruvinel, no Jornal do Brasil

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