DIÁRIO DO BOLSO 1 – Sátiras da rotina do presidente Jair Bolsonaro

por José Roberto Torero
Eu nunca pensei que ia fazer isso. Diário é coisa de menina. Mas, pô, agora eu sou presidente e tenho que escrever as coisas pra lembrar quando eu tiver Alzaimer (como é que se escreve isso? O corretor marcou de vermelhinho, mas tinha que dar a palavra certa, pô).
Só não vou começar escrevendo “Querido Diário” porque isso é coisa de boiola.
Bom, anteontem foi a posse. Coisa fina!
Gostei daquela história de deixar os jornalistas esperando sete horas, presos num cercadinho, sem maçã, sem garrafinha de água, sem cadeira, sem banheiro, sem cafezinho e com um sniper fazendo mira neles. Tem que meter medo. Agora aquelas bichas vão saber onde enfiar as canetinhas.
Falando em canetinha, aquilo de assinar a posse com uma Bic foi demais. Opa! Bic, não. Compactor. Eu devia cobrar mercham. Só espero que não façam um modelo com tinta vermelha.
Falando em vermelho, na festa só o tapete é que tinha essa cor. Gostei de pisar nele, he, he.
Uma boa sacada foi a Michelle fazer discurso em libras antes de mim. Agora quero ver se me chamam de machista. Se bem que aposto que vai ter um comuna dizendo que eu não deixei ela abrir a boca.
Bom, o importante é que cheguei chutando a porta!
A ideia de passar a demarcação das terras dos índios e dos negros para a Agricultura foi muito genial. A Funai sifu.  Quinze por cento das terras do país para essa gente é um exagero. Chega de índio e de quilombola! Vamos botar calça nesse pessoal!
A mexida no Itamaraty também foi boa. Agora qualquer um pode ser chefe. Não precisa mais ser um diplomatinha de carreira, falar catorze línguas e blábláblá. Chega daquela bicharada mandando.
O Moro ficar com a Coaf também foi demais. Agora aquela história do Queiroz vai pra debaixo do carpete. Ou será que o certo é falar pra debaixo do tapete? Tanto faz. Já assinei o decreto que proíbe qualquer um do Coaf de falar qualquer coisa. Sem dar carniça para os urubus, daqui a pouco todo mundo esquece o assunto. Acho que vou chamar isso de Operação Boca Fechada.
A tal da Comissão da Anistia também sai da Justiça e fica com a Damares. Agora não vão mais encher o saco.
E acabei com o ministério da cultura. Intelectual é tudo marxista. Agora o dinheiro vai secar para eles. Nos primeiros dias de desmame os bezerros vão chorar muito. E se depender de mim vão morrer de fome. Artista bom não precisa de ministério da cultura. Olha aí o Zezé do Camargo, a Mara Maravilha e a Regina Duarte.
Bom, agora chega. Prum primeiro dia já escrevi bastante. Tá na hora da reunião com o Onyx, com o Mourão e com os ministros. Reunião é um saco. Se pelo menos fosse num churrasco…
Depois escrevo aqui como foi.
Até amanhã, querido diário. Opa, querido, não!

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