Quase nunca a política externa dos Estados Unidos favoreceu a democracia em algum país em desenvolvimento. E o estado de guerra corrói valores éticos, pois se chega a uma situação de “tudo ou nada”

Sem dúvida trata-se de uma guerra, e uma guerra de ocupação. Os Estados Unidos querem ocupar as reservas petrolíferas da Venezuela em benefício próprio e das multinacionais com que interagem. Não se trata de questões de “democracia”, “direitos humanos” ou outras fantasmagorias (neste contexto) que se erguem para os incautos e basbaques como fake values, “espantalhos de valores”. Rarissimamente a política externa dos Estados Unidos favoreceu a democracia onde quer que fosse no Terceiro Mundo.
Na Europa pós-Segunda Guerra favoreceram a democracia para conter os soviéticos na Guerra Fria. O cortejo de sangrentos golpes de Estado que os Estados Unidos apoiaram ou patrocinaram pelo mundo é espantoso, bem como as guerras estúpidas que promoveram, antigas e atuais.
A América Latina foi palco privilegiado destas ações nefastas dos Estados Unidos, mas elas se estenderam também pela África, Ásia e Oceania, onde quase sempre apoiaram, quando viam como necessário, governos despóticos e opressores, derrubando estadistas democraticamente eleitos. Mesmo quando combateram ditadores, como nos casos do ex-aliado Saddam Hussein e de Muammar Gaddafi, os Estados Unidos meteram os pés pelas mãos e terminaram agindo no sentido de destruir os países que “salvavam para a democracia”.
É emblemática a resposta de Aloizio Mercadante à patética pergunta sobre “por que não há golpes de Estado nos Estados Unidos?” num programa da TV brasileira: “É porque lá não há Embaixada norte-americana”.
Na Venezuela não seria, não é e não será diferente. Trata-se de apoiar um golpe de Estado para depor Nicolás Maduro e entronizar um títere que lhes seja favorável, seja ele Juan Guaidó ou outro qualquer.
Mas deve-se considerar que toda a guerra é uma coisa muito feia, mesmo as de libertação. O estado de guerra corrói valores éticos, pois se chega a uma situação de “tudo ou nada”. Para o nosso lado, tudo; para o deles, nada.
Olhando-se a crise venezuelana, vê-se uma situação de todo complexa. Comecemos pelo herdeiro de Hugo Chávez, o governo de Maduro. Herdou uma situação precária. O bolivarianismo de Chávez promoveu os imensos cordões de pobreza e as populações indígenas e criollas do país a uma situação humanitária melhor. Navegando nos bons preços do petróleo, então vigentes, não promoveu uma reestruturação econômica do país, diversificando a produção e a gestão. Entre outras coisas, a Venezuela permaneceu prisioneira das exportações de petróleo, cujo principal freguês (mais de 40%) são… os Estados Unidos.
Com a crise de 2007/2008 e a desvalorização do preço do petróleo, o país afundou na inflação e na desgraça. Inegavelmente ainda com índices fortes de popularidade junto às classes mais pobres, ainda que desvalidas, num país completamente dividido, o governo de Maduro vem se mantendo graças a um acordo com os dirigentes do estamento militar em torno da PDVSA, a companhia estatal petrolífera – agora duramente atingida por sanções econômicas dos Estados Unidos que estão congelando as reservas da empresa no seu sistema financeiro.
Em apoio de Maduro estão Rússia, China e Turquia que não são, propriamente, cartões de visita de uma perspectiva democrática. Cuba é um caso à parte, bem como a Nicarágua, países que também têm problemas com a democracia, mas não devem ser confundidos com aqueles três. Já o Uruguai, Bolívia e México externam vozes sensatas pedindo negociações, enquanto se recusam a reconhecer Guaidó no seu gesto algo monárquico de se autoproclamar “presidente”. Outra voz sensata a pedir negociações para evitar um banho de sangue é a do Papa.
Em todo caso, até o momento, os Estados Unidos não conseguiram seduzir a maioria dos membros da OEA nem do Conselho de Segurança da ONU em favor de sua aventura que pode rapidamente passar de uma “guerra híbrida” a uma invasão militar ou patrocínio de um golpe de Estado. As tiradas de Guaidó prometendo “anistia” a militares que se rebelem contra Maduro e a este mesmo, caso renuncie, vão nesta direção do aventureirismo norte-americano.
Olhemos agora Guaidó. Ele é o líder do movimento/partido chamado de Voluntad Popular, um político jovem, com popularidade junto às classes médias.
O programa de seu partido tem formulações confusas e híbridas. Auto declara-se de “centro-esquerda”, é filiado à Internacional Socialista e define-se como partidário da “economia social de mercado”, um programa nascido na Alemanha em que se misturam práticas capitalistas e liberais com valores cristãos. Seria algo próximo da União Democrata Cristã, da chanceler Angela Merkel, não fossem as características peculiares da situação venezuelana, que empurraram o ex-líder de movimentos estudantis para a liderança de um golpe de Estado com o apoio daquilo que no mundo de hoje há de pior em matéria de geopolítica, inclusive a regional da América Latina.
A seu lado estão Trump, e sua entourage composta por John Bolton e Mario Rubio, dentre outros ases do imperialismo brucutu instalado em Washington e na Flórida, além de Bolsonaro e seu chanceler fundamentalista Ernesto Araújo, os governantes da Argentina, Colômbia, Peru, Chile e outros ases da direita na região, além de Netanyahu, de Israel e da direção da OEA. O Canadá vai na esteira de Washington. A cúpula da União Europeia e alguns de seus países líderes, como Alemanha e França (o Reino Unido, por ora, está em algum ‘não lugar’) estão tentando formular uma “terceira via” que parece mais uma mera extensão da política de Washington: deram um prazo para que Maduro chame novas eleições; caso contrário, reconhecerão Guaidó como presidente.
Diante deste quadro complexo e também confuso, pode-se vislumbrar as seguintes alternativas:
1. As piores alternativas são as de um golpe militar depondo Maduro, ou de uma vitória institucional de Guaidó. A Venezuela ingressará no clube onde já estão países como Brasil, Colômbia, Chile etc., de meros quintais fantoches dos Estados Unidos. Também não se pode descartar como dentre as piores hipóteses igualmente complicadas como uma guerra civil ou invasões militares, em que o país e a América do Sul se tornarão palco sangrento da “nova Guerra Fria. As promessas desenvolvimentistas de Guaidó se esvaziam diante da truculência previsível de seu patrocinador mais importante, Trump.
2. Embora uma solução mais equilibrada da crise passe pelo menos de momento pela permanência de Maduro na presidência, outra hipótese complicada é a simples perpetuação do atual status quo. A divisão do país permaneceria extrema, e com ela o caldo de cultura que favorece a intervenção norte-americana e de seus bate-paus no continente.
3. Algum tipo de solução negociada terá de se impor, para instalar um tipo de equilíbrio, mesmo que precário. A melhor hipótese, neste caso, é a de uma negociação mediada por país da região (México, Uruguai, Bolívia, dentre outros), até mesmo com a participação da diplomacia do Vaticano (aquela ligada a Francisco, não a da Cúria) e que tenha o beneplácito de Rússia e China, já que estão encravados na questão e poderão ajudar a conter os ímpetos mais belicosos de Trump & Cia.
4. Tudo seria bem mais fácil, se o Brasil pudesse manter sua tradicional posição em favor de negociações e da via diplomática. Mas isto, de momento, é carta fora do baralho. Bom, de qualquer modo, no plano internacional, tirando o alinhamento com a extrema-direita do Partido Republicano, a política externa brasileira é carta fora de qualquer baralho.
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