Ao se atribuir os erros e as falas da ministra Damares à sua suposta ignorância ou baixa escolaridade pode-se incorrer no risco de subestimar os objetivos ideológicos que a tornaram ministra.

Há duas semanas defendi que, grosso modo, há três tipos de erros de grafia: os que decorrem da inconsistência do sistema ortográfico (à mesma letra não corresponde sempre o mesmo som, e vice-versa); os que decorrem da tentativa de escrever corretamente, mas sofrem a interferência da pronúncia (escrever, por exemplo, L por U, O por U, E ou I, O por OU, E por EI etc. em certas posições, fato que nenhuma escrita “fônica” consegue contornar); e, finalmente, os erros que se “cometem” voluntariamente, para conotar outros efeitos, como çábios, justissa e Felha, entre outros, para conotar que os çábios não são sábios, muito pelo contrário, que a Justissa não é a justiça (manda voltar ao começo os processos contra Paulo Preto enquanto acelera os contra Lula), que um jornal adota posições enviezadas.
Andei relendo O Complexo de Portnoy, de Philip Roth. Entre suas façanhas, Portnoy consegue representar a ignorância escolar de uma de suas namoradas pela grafia “primária” (que o ótimo tradutor, Paulo Henriques Britto, resolve muitíssimo bem) de um bilhete que ela deixa à faxineira: “quirida willa incere o chão perto do baneiro e não deiche de limpar as janela por dendro mary jane r“.
Todos esses erros podem ser encontrados nos cadernos dos anos iniciais e nas Placas do Meu Brasil (no Google) e alguns – especialmente a (falta de) pontuação –, também nas postagens no Facebook e aplicativos aparentados.
Em uma aula sobre oralidade e escrita (que todos os futuros alfabetizadores deveriam ter para entenderem o que se passa com a escrita inicial e assim não mandarem logo as crianças para médicos e psicólogos…), esses erros podem ser muito bem explicados, o que não quer dizer defendidos (os linguistas temos que passar a vida mostrando a diferença entre uma descrição e uma defesa…).
No romance, os erros servem para caracterizar a precária escolaridade da moça, que fez sucesso com base em outras virtudes. O sentido é “vejam como é ignorante; seus bilhetes exibem esta escrita”. Mas também, “se pudesse ter estudado um pouco mais, sua escrita seria outra”.
A ministra Damares andou se vangloriando de uns títulos de mestra. Depois de ser pega com a boca na botija, alegou que sua formação é bíblica, e que em alguma epístola pregadores da palavra de Deus são considerados mestres. Ela deve saber muito bem que ser mestre não é a mesma coisa que ter feito um mestrado, mas tentou enganar, depois que produziu a batatada primeira.
Mas houve quem representasse sua tentativa de burla numa charge na qual exibia um DIPROMA e, ao lado, MÉQUI.
Ora, grafar assim DIPLOMA (muitos populares falam R nessa posição silábica) e MEC (com duas sílabas, que é como todos falam, basta que se ouçam) para representar a ignorância de Damares são dois equívocos.
Um é sociolinguístico, porque a falta de cultura de Damares é a da pouca escolaridade. Não se pode representá-la como pessoa pouco escolarizada em consequência de fatores de classe.
O outro equívoco é ideológico, porque confunde a ignorância dela sobre temas como gênero (que é o caso mais notório, vide as declarações sobre azul e rosa) com a falta de escolaridade da população mais pobre, cuja capacidade é comumente representada como inferior por meio de seu sotaque ou dialeto, o que é um erro brutal.

Sirio Possenti

Fonte: Rede Brasil Atual

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