Enquanto em Brasília o biruta capitão de milícias e o “engraçado” general continuavam protagonizando uma pornochanchada política da pior categoria, em São Bernardo do Campo (SP) anunciava-se, nesta terça-feira (19) o fechamento da centenária fábrica da Ford Corporation. Mais de 3000 operários mandados para o olho da rua. A Ford deve deslocar a produção para os EUA.
A decisão foi tomada na matriz dos Estados Unidos com a alegação da “necessidade de encontrar retorno à lucratividade sustentável de suas operações na América do Sul”.
A empresa revela que no período 2013 a 2018 já acumula prejuízo de US$ 4,5 na América do Sul. Podem ter aumentado o valor do prejuízo, mas a razão alegada é verdadeira. A taxa de lucro média na indústria brasileira em geral ficou relativamente mais baixa que a média mundial desde o último choque global (2008/2009).
Por isso a economia parou. Encontra-se agora estagnada no fundo do poço. No mais baixo nível desde 2009, como verificamos em boletim recente. No pior ponto do buraco da última crise global, só esperando a próxima para sumir no precipício.
Esse fechamento da fábrica de caminhões da Ford vai gerar um efeito em cascata difícil de mensurar exatamente. Distribuidores e fornecedores da fábrica de São Bernardo vão necessariamente quebrar nos próximos meses, porque as demais empresas do ramo não terão condições de substituir a demanda que vinha da montadora estadunidense.
Isso vai engrossar a fila de desempregados na região do ABC paulista, que já foi o maior polo automotivo do Brasil, gerando mais um grave problema social. Apenas na própria Ford serão cerca de 3 mil operários que serão despedidos.
O sindicato pelego fala em “apenas” 2,8 mil, tentando minimizar o desastre sobre os operários e agradar os patrões. Os capitães do mato da burguesia não estão só nos palácios de Brasília. Estão também nos sindicatos pelegos da CUT e outras centrais sindicais.
Na verdade, o fim das atividades da fábrica em São Bernardo deve desempregar indiretamente até 24 mil trabalhadores, segundo estimativas preliminares do conceituado e sério Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). Vão engrossar as dezenas de milhões do exército de desempregados em todo o país.
O pior da situação é que esses novos desempregados voltarão ao mercado de trabalho de mão vazia para vender sua força de trabalho em uma hostil realidade de elevado desemprego e de substituição de empregos formais por vagas intermitentes, rotativas, de acordo com a reforma trabalhista recentemente implantada no país.
O problema não é só na Ford. É de toda a indústria instalada no Brasil. A possibilidade de que as empresas industriais em geral instaladas no Brasil recuperem um nível razoável da taxa média de lucro é altamente remota. Pelo menos até a explosão do próximo choque periódico global nada deve mudar. Só piorar.
Por motivos relacionados à valorização do capital global, apesar do aumento da exploração da classe operária no Brasil, a taxa de lucro nesta economia nacional será cada vez menos atraente para as empresas globais. E a tendência de encolhimento da produção deve persistir agora e agravar significativamente no momento da explosão do próximo choque periódico.
É justamente essa situação claramente verificada pela análise crítica que compõe a base material determinante das diversas possibilidades e cenários políticos no Brasil para a próxima década.
No que se refere à ordem política em Brasília, uma coisa é certa: tanto o atual presidente quanto os próximos que devem substituí-lo (dificilmente por vias civilizadas e institucionais, diga-se de passagem) estarão ocupados o tempo todo como peão de vaquejada tentando se manter o máximo de tempo em cima do touro e ganhar o cobiçado prêmio de ter sido o que mais demorou para cair.

Fonte: Crítica da Economia

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