Nesta semana, escola de educação infantil em que Bruno Santana dá aulas deu resposta a mãe que mostrou preconceito que viralizou nas redes sociais

Professor licenciado em Educação Física pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), pesquisador na área de Educação, Gênero, Raça, Direitos humanos e Transmasculinidades, e ativista do Coletivo de Transs pra Frente e da Transbatukada em Salvador, Bahia, Bruno Santana sente na pele o preconceito e o orgulho de ser um homem trans.
Muitas pessoas trans e travestis tiveram que morrer para que eu pudesse chegar até aqui. Quando uma pessoa trans ocupa qualquer espaço na sociedade, ela leva consigo toda uma história de luta e resistência, que servirá de incentivo para todas as outras que virão. Isso é motivo de muito orgulho. Essa conquista é coletiva e envolve muitas redes de afeto e acolhimento.
Bruno encontrou na Escolinha Maria Felipa de Educação Infantil, onde dá aulas a crianças entre 2 e 5 anos, uma dessas redes de acolhimento, o que não lhe poupou de ser vítima de preconceito, como acontece além dos muros da escola.
Leia também: Escolinha de Salvador dá invertida em mãe de aluno que pergunta sobre professor trans
Na última terça-feira, diretores da escola publicaram nas redes sociais a resposta dada a uma mãe. Buscando uma escola para o filho, mas perguntando, primeiramente, se havia um professor trans na instituição. “Não que eu concorde, mas você não acha que isso pode ter diminuído o número de matrículas de vocês?”, indagou a mãe, que recebeu resposta à altura. “Quem acha que uma pessoa trans, apenas por ser trans, não pode educar seu filho, não merece a nossa escola.”
Bruno diz que tinha plena certeza que a escola seria assertiva na resposta, pelo próprio projeto pedagógico e de sociedade que defende. “É preciso destruir as estruturas desse Cis-tema LGBTfobico responsável por todo extermínio e violência contra população LGBTQI +. E isso só será possível através da Educação. E assim tenho feito”, disse em entrevista à Fórum, usando propositalmente o “Cis-tema” em vez de “sistema”.
Para ele, a transgeneridade nunca será um problema para as crianças. “As pessoas adultas que perdem tempo disseminando preconceitos. As crianças não estão preocupadas se seu professor é um homem trans, elas são inteligentes e entendem que a identidade de gênero é apenas mais uma possibilidade de ser e estar no mundo”, conta.
De acordo com o professor, através da vivência propiciada pelo ensino, as crianças destroem essa visão de mundo que coloca seres humanos uns contra os outros. “O mais importante nesse processo de ensino-aprendizagem é possibilitar que elas vivenciem experiências pedagógicas que garantam o seu desenvolvimento humano. Que sigam sendo pessoas comprometidas na construção de um mundo que inclua todas as pessoas.”
Bruno diz que a escolinha faz história ao se colocar como aliada contra a LGBTfobia. “Em meio a tempos de fascismos e perdas de direitos posicionamentos como esses nos mostra que estamos no caminho”, diz.
Revolução pela educação
Para Ian Cavalcante, diretor da escola, a decisão de publicar a resposta nas redes sociais foi tomada justamente para defender valores defendidos pela escola e pelas famílias da comunidade escolar, como a luta contra o racismo, a homofobia.
As famílias que estão conosco carregam os mesmos valores humanos, são parceiros na luta antirracista, anti-homofóbica, na luta por uma sociedade menos heteronormativa, misógina e patriarcal. E a gente acredita que a educação tem que ser por meio da prática. Então quando essa mensagem chegou até nós, nos sentimos muito ofendidos por mostrarem na nossa cara esse tipo de preconceito e discriminação. E demos uma resposta que acreditamos estar a altura dos valores que a comunidade que está conosco defende”, diz.
Segundo o diretor, a viralização da publicação se deu como uma resposta do próprio processo social que estamos vivendo que, embora seja triste, tem mobilizado mais pessoas para a luta. “Apesar de termos ficado tristes com a mensagem da pessoa, ficamos extremamente felizes e emocionados em perceber o quanto as pessoas estavam abraçando a nossa luta.
Ian ressalta que Bruno é um excelente profissional e contribui na prática para a construção de uma educação sem preconceitos. “Ele atua com crianças de 2 a 5 anos e não trabalha diretamente questões sobre o que é ser um homem trans, é uma questão desenvolvida por meio da prática. O ser humano não nasce sabendo odiar, a ter preconceitos. Ele precisa aprender isso. E na Maria Felipa estamos ensinando as crianças a não desenvolverem preconceitos, a não discriminar, por nenhum motivo, por meio do exemplo prático.
Para Ian, as políticas educacionais defendidas por Jair Bolsonaro (PSL) e incentivadas pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez-Rodriguez, nos coloca diante de um dos momentos mais desafiadores em relação ao ensino. Porém, ele acredita que tudo isso é parte do inconformismo da elite conservadora em um quadro de revolução social.
É um cenário tenebroso, onde temos um ministro da Educação que defende coisas absurdas como o Escola Sem Partido, que é nada mais nada menos que censurar professores. As camadas conservadoras da nossa sociedade estão desesperadas, pois elas já perceberam que a revolução já teve início e elas estão tentando a todo custo pará-la. A revolução vai ocorrer muito por meio da educação. A educação é uma arma importantíssima para a revolução social.
Plinio Teodoro

Fonte: Revista Fórum

Anúncios