Continuando nossa série, hoje trazemos a segunda parte da introdução da dissertação do pesquisador Luiz Mário Ferreira Costa que delineia claramente qual a linha a ser seguida em sua pesquisa.

Maçonaria e Antimaçonaria: Uma análise da “História secreta do Brasil” de Gustavo Barroso

(Segunda Peça)

Segundo José Antônio Ferrer Benimeli, o surgimento desta história antimaçônica deve-se ao fato da Maçonaria ser um “fenômeno sócio-político” atuante, em maior ou menor grau, durante os três últimos séculos da história ocidental. (BENIMELI, J. A. Ferrer. La franc-maçonnerie face aux dictatures : L’ obsession antimaçonnique des totalitarismes. In: MARX Jacques (org), Maçonnerie Maçonneries. Conférences de la Chaire Théodore Verhaegen 1983-1989. Bruxelles: Editions de l’ Université de Bruxelles, [1983-1989]. p.11.)

Muito próximo da perspectiva defendida por Benimeli está Georges Cottier, para quem a gestação de um discurso que agregava à imagem da Maçonaria, elementos pejorativos e degenerativos, deve ser buscada em documentos pontifícios setecentistas. Para Cottier, a relação entre a Maçonaria latina e a Igreja Católica quase sempre foi marcada pelas diferenças e incompatibilidades. Além disso, foi uma literatura, mais ou menos tendenciosa, que contribuiu para fomentar uma imagem distorcida da Maçonaria, uma vez que muito se escreveu sobre o tema e na maioria das vezes os autores buscavam evidenciar seus posicionamentos, sejam eles contra ou a favor. (COTTIER, Georges. Regards catholiques sur la maçonaria: l’ histoire de difficles rapports. In: MARX Jacques (org). Maçonnerie Maçonneries. Conférences de la Chaire Théodore Verhaegen 1983-1989. Bruxelles: Editions de l’ Université de Bruxelles, [1983-1989]. p. 27.
CONFERÊNCIA, LeoTaxil. Online. Disponível em http://www.guatimozin.org.br/artigos/taxil_confer.htm Acessado em 05 de Janeiro de 2009.)

No entanto, foi com a publicação de Mémoire pour servir à l’histoire du Jacobinisme (“Memória para servir a história do jacobinismo”) em 1797 de autoria do Abade Barruel, que teríamos a consolidação desta narrativa antimaçônica. Grosso modo, as “memórias” defendiam que os acontecimentos revolucionários de 1789 resultaram duma longa conspiração tramada desde a época dos Templários. Com efeito, em fins do século XVIII, nasceria em solo europeu o embrião de um discurso antimaçônico fundado na ideia de uma “conspiração jacobina”. Aos poucos a narrativa antimaçônica ganharia novas formas e sentidos com textos e imagens produzidos a partir da década de 1790, cujo principal objetivo era tentar explicar as causas daquela que foi a maior de todas as revoluções.

No século XIX, mesmo correndo o risco da generalização, podemos verificar que, principalmente, nos países latinos, a narrativa antimaçônica já possuía um corpo bem definido. A expressão “revolucionária” quase sempre acompanhava a denominação da Ordem. As Lojas passaram a ser identificadas como centros de subversão. A publicação de Os Mistérios da francmaçonaria revelados em 1885, de autoria do ex-maçom Gabriel Jogana-Pagès, conhecido como Leo Taxil, pode ser ilustrativo para nos mostrar a forma específica deste discurso. Nestes textos, Leo Taxil associava os símbolos maçônicos às bestas demoníacas. Segundo o autor, os maçons eram personificações do demônio com planos para a dominação do mundo.

Esta nova ideia adquiria força, pois tornava-se cada vez mais evidente no senso comum, especialmente, nos Estados católicos, que aqueles antigos “homens conspiradores” eram na verdade “demônios conspiradores”. A situação ficaria mais delicada na medida em que crescia o número de bulas e textos pontifícios, o que terminou por esculpir a narrativa antimaçônica do século XIX. Como exemplo dessa propaganda, podemos citar a Constituição Apostólica Ecclesiam a Iesu Christo, de 1821, publicada pelo papa Pio VII (1800 – 1823) e a Constituição Quo graviora, de 1825 do papa Leão XII (1823 – 1829). Além disso, de Pio IX (1846 – 1878) a Leão XIII (1878 – 1903) encontramos nada menos do que 350 intervenções pontifícias contra a Maçonaria. (FERRER BENIMELI, J. A., CAPRILE, G. & ALBERTON, V. Maçonaria e Igreja católica. Ontem, Hoje e Amanhã. São Paulo: Paulus, 1983. p.33)

No início do século XX, países como Portugal e Espanha foram marcados por reações de forças conservadoras, que responsabilizavam, sobretudo, os maçons e os judeus pela destruição do mundo tradicional e pela criação da modernidade. Gradativamente, o discurso antimaçônico assumia uma nova feição: a associação entre Maçonaria e o “complô judaico”. Na Espanha, por exemplo, o complô judaico-maçônico foi somado por novas condições pejorativas como “comunista ou marxista”. Isso tornou-se evidente através do famoso slogan, “judeu-maçônico-comunista”, o que marcou fortemente o imaginário coletivo. (FERRER BENIMELI, J. A. (op.cit), p.22.)

No Brasil, essa associação também pôde ser percebida e encontrou em Gustavo Barroso um de seus principais divulgadores. Para o escritor maçom Nicola Aslan, Gustavo Barroso representou um exemplo da importância negativa da narrativa antimaçônica nacional. Aslan sugere também que o sistema de calúnias, inaugurado pelo jesuíta Barruel, foi empregado por Gustavo Barroso quando escreveu sua História secreta do Brasil. (ASLAN, Nicola. História geral da maçonaria (fatos da maçonaria brasileira). Rio de Janeiro: Aurora, 1979. p. 79.)

Deste modo, seguindo a pista de Aslan, tentaremos recuperar a história da narrativa antimaçônica brasileira buscando identificar os elos entre uma matriz do pensamento católico conservador, de fins do século XVIII, e uma parte da elite intelectual brasileira da década de 1930. Para darmos conta do objetivo geral, optamos por trabalhar levando-se em conta duas dimensões.
A primeira, construída na “longa duração”, buscará analisar as diferentes feições assumidas pelas narrativas antimaçônicas, a partir do início do século XVIII, com a publicação das primeiras condenações à Maçonaria, tanto pelo poder papal quanto por governos seculares.
A segunda preocupa-se em analisar a conjuntura de produção, edição e circulação do livro História Secreta do Brasil, procurando perceber as continuidades em relação a uma tradicional narrativa antimaçônica, mas também perceber os novos elementos acrescidos que dialogavam com o clima de radicalização política e de crescimento do autoritarismo que caracterizou, particularmente, o Brasil da década de 1930.

A dissertação está dividida em três capítulos.

O primeiro capítulo tem por objetivo realizar um breve estudo histórico das narrativas antimaçônicas. De início serão analisados os aspectos que dizem respeito às origens da Ordem Maçônica, já que o tema pode ser enfocado de muitas distintas maneiras, mas, em todas elas é necessário conhecer antes sua história.
Em seguida, reforçaremos a ideia de que a Igreja Católica foi o principal agente difusor do antimaçonismo, tendo em vista as inúmeras condenações e reprovações que determinaram a maneira como a Maçonaria foi recebida, sobretudo em Portugal e no Brasil. Na segunda metade do capítulo, discutiremos os fatos que contribuíram no desenrolar da narrativa antimaçônica, responsáveis por atribuir à Maçonaria, dentre outras coisas, a culpabilidade e execução da Revolução Francesa. A imprensa foi um dos palcos deste confronto no Brasil. A tradução de obras que difundiam o antimaçonismo representava o clima hostil aos Pedreiros Livres, vistos como grupos heterodoxos que ameaçavam a ordem civil e eclesiástica.

No segundo capítulo, analisaremos a produção intelectual de Gustavo Barroso. Partiremos do pressuposto que o conhecimento do perfil deste autor pode ajudar-nos a vislumbrar os objetivos implícitos e explícitos de seu discurso antimaçônico. Assim, para compreendermos as idéias e de que forma Gustavo Barroso entendia o “poder da escrita” é preciso, antes, conhecer um pouco desta personalidade contraditória, que por um lado demonstrava sensibilidade ao organizar um museu e traduzir textos do precursor do romantismo alemão Goethe e, por outro, expressava todo o seu fanatismo como Chefe das Milícias integralistas.

No terceiro capitulo, demonstraremos como o anti-semitismo e o anticomunismo contribuíram com recursos imagéticos no fomento de uma “nova” narrativa antimaçônica, inaugurando, deste modo, no cenário político brasileiro, o mito da “conspiração judaico-maçônica-comunista”. Para isso analisaremos a principio o alcance da ideologia anti-semita. Sua forma tradicional e seus aspectos modernos serão destacados na medida em que percebemos que o ódio aos judeus se transformou num dos principais recursos das ações propagandísticas do autor. Além disso, aprofundaremos o estudo acerca das diferentes apropriações do discurso anticomunista no Brasil, tendo como foco as manifestações de repúdio da Igreja Católica expressas fundamentalmente no discurso político-partidário de Barroso. Por fim, trataremos de especificar os contextos de produção e circulação do livro História Secreta do Brasil e sua correlação com o best-seller anti-semita, Os Protocolos dos Sábios de Sião.


Leia a primeira peça sobre o tema: MAÇONARIA E ANTIMAÇONARIA: As Teorias Conspiratórias

Continuaremos em breve com a Terceira Peça. Não perca!

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