Eu fui condenado eternamente a viver em carne e osso. A viver com a dor, com a solidão, com a depressão diária. Com as notícias melancólicas nos jornais rotineiros, que se repetem durante 3 ou 4 dias antes de serem esquecidas, lembradas apenas como estatísticas, para dar espaço a mais notícias melancólicas, com os mesmos enredos, mesmas histórias, com diferentes protagonistas.
Sou condenado a viver em um mundo podre, movido sob o sangue e suor da maior parte da população. Sou condenado a ver meu povo morrer em nome da nação. Ó, pátria armada Brasil. País do futebol, onde a maior parte das chuteiras são penduradas nos fios, corpos postos em caixões e onde os mesmos porcos que gritam na frente das câmeras declarando apoio à guerra às drogas, são os mesmos porcos nojentos que distribuem cocaína e fuzil nas favelas brasileiras, e que derramam o sangue de crianças e lágrimas de seus pais, assim como de Marcos Vinícius, atingido por um tiro de blindado no peito, dia 24/06/2018.

“Vem calar, me censurar, porque não pode falar nada. É como se fosse o rabo sujo falando da bunda mal lavada” – MV Bill

Brasil, país aonde apenas durante a década de setenta alcançou 50% de população urbana. O país em que reclica apenas 3% do lixo, mas que acha que pode ensinar a Alemanha alguma coisa sobre convívio com o meio ambiente. Um País com mais de 3 mil lixões irregulares à céu aberto, mais de 50% da população sem acesso a saneamento básico.
Como se não bastasse, um país onde é encontrado 39kg de cocaína num avião da FAB, com destino a um evento com os representantes das 20 maiores economias mundiais. Mas isso é fichinha, não é mesmo? Afinal, oque é 39kg de cocaína perto de um helicóptero carregando 300kgs de coca base, e que para piorar, não existia piloto, ou não quiseram encontrá-lo. Você pode até escolher no que acreditar, mas isso nunca irá mudar a realidade.
Em um país aonde, para alcançar aquilo que se quer, pode tudo, mas só se você seguir alguns requisitos mínimos:
[ ] Branco
[ ] Homem Cis
[ ] Berço Nobre
[ ] Influência

É impossível se tornar burguês. Ou você nasce burguês, ou morre tentando atingir esse patamar.

Ninguém enriquece com trabalho honesto aqui. Pra te falar a verdade, acho que em lugar algum. Mas não sejamos tão pessimistas não é mesmo? Afinal de contas, oque seria do sistema sem uma promessa de “sonho americano” ou por uma expectativa de vida melhor em algum país do norte europeu. Sim, esse mesmo continente marcado e lembrado por todos como o berço da humanidade, mas apenas quando se fala em homo sapiens, até porque todos sabem que o macaco veio da África.

Esse mesmo continente que se auto declara mãe da arte e da ciência. Um continente sustentado por colônias, até menos de 200 anos atrás. Extraindo ouro, pedras preciosas, madeira, e qualquer outra coisa que lhes interessasse. Afinal, eles eram os donos do mundo não é mesmo? E se alguém reclamar, porque não acorrenta-los e jogá-los no porão de um navio, para 500 anos depois – e não são 500 anos de contos de fada. São 500 anos de humilhação, tortura e de negação. – virem falar que não existe dívida histórica e que racismo não existe no nosso país.

E hoje, no Brasil, e não só nele, mas especialmente nele, temos um babaca brincando de ser presidente, assim como outros brincaram um dia e alguns outros brincaram de ser rei outra vez. Um babaca, que afirma ter dado uma “fraquejada” e por isso sua filha nasceu mulher. Um racista, homofóbico, xenofóbico, que induz à uma criança fazer sinais de armas de fogo. Um homem que faz piada com a morte de um trabalhador, garçom, morto numa parada de ônibus, esperando a esposa, ele teve seu guarda-chuva confundido com um fuzil. Isso não é novidade. Já confundiram, além disso, furadeiras com pistolas, e até mesmo um carro de família com um carro de quadrilha. Mas sabe oque nunca confundiram? A cor. Eles sempre acertam a cor. O alvo na mira sempre é preto.

Dizem que minha comunidade é violenta. Mas a minha comunidade não é violenta, ela é muito boa. É a operação que, quando vai lá, vai com muita truculência” – Bruna Silva, trabalhadora e mãe de Marcos Vinícius

Um país onde são distribuídos fuzis de assalto de fabricação russa – que efetuam 700 disparos por minutos, não sobreaquece e não trava, mesmo cobertos por lama, água ou areia. – para crianças entre 8 e 12 anos. Crianças perdendo a infância enquanto carregam granadas e pacotes de cocaína, entre as vielas com ruas de barro de suas comunidades, verdadeiras zonas de guerra.
Como um fuzil russo vai parar na mão de um muleque brasileiro numa favela qualquer? Sem acesso a educação ou saúde. Um fuzil de mais de 60 mil reais na mão de quem as vezes precisa escolher entre uma carteira de cigarro ou uma passagem de ônibus. Como um fuzil de assalto, não apenas um, vários fuzis de assalto atravessam o mundo, passam por fronteiras vigiadas 24horas por dia, percorrem as rodovias que não dormem, e vão parar em ruas não asfaltadas com barracos de maderite, nas mãos de alguém que cresceu vendo seus vizinhos e amigos sendo atingidos e mortos por quem – em tese – deveria proteger e servir a nação.

“Quantos irmãos se vão sem direção? Vão
Atrás do cifrão, em guerra de facção, vão
De arma na mão, granada, boné
Trilhando o morrão de chinelo no pé
Dois anos de rei pra morrer como um Zé”
Enquanto escrevo esse texto – que qualquer um poderia escrever, não estou dizendo nenhuma novidade ou algo que precise pensar muito para concluir – eu poderia estar com uma 9mm no colo, atento aos barulhos que vem de baixo da ladeira, e no primeiro susto eu atiraria, quem não atiraria?
Pra falar a verdade, eu só não atiraria como atirei. Uma rajada. De letras, vírgulas e pontos. Termino esse texto com a mesma mesmice que comecei. Eu não cheguei em lugar nenhum com ele, não teria aonde chegar, porque não parti de nenhum outro ponto, como se cruza uma reta entre dois pontos inexistentes? É como o retorno dos que não foram, e no meio de todos esses títulos,que se contradizem e não fazem sentido, eu encontrei um perfeito para o nosso mundo: A vitória daqueles que não competiram.

(Texto de autoria de Pedro Henrique Aveline, 17 anos, estudante do ensino médio, filho de um Maçom Progressista.)

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