Durante toda a infância, adolescência e início da vida adulta deste mero andarilho que vos escreve, a percepção sempre expunha as religiões de matrizes africanas como potencialmente nocivas. Exú era o sinônimo nefasto do maniqueísmo cristão, a macumba configurava a materialização do mal e tudo que fosse posto como oferenda amaldiçoava aquele que com ela se relacionasse; só pra citar alguns exemplos. Não raro, omitia das pessoas em geral que a Minha Vó, devota de São Cosme e Damião (venerados por católicos e religiões afro-brasileiras), realizava anualmente um banquete em oferenda aos gêmeos objetivando pedidos e agradecimentos pelas graças alcançadas.

O Brasil é um país racista majoritariamente cristão. Apesar desta hegemonia, as religiões de matrizes africanas resistiram a todo tipo de violência ao longos dos séculos de exploração e atualmente afloram em distintas regiões do nosso território, segundo o último Censo de 2010.

Bem… caso ainda desconheça por alguma razão é providencial frisar que o período da escravidão sequestrou africanos de diversas etnias do continente que, ao embarcar nos navios negreiros, eram rebatizados e misturados para evitar qualquer tipo de interação. Em terras brasileiras os nossos irmãos se reorganizaram bravamente para preservar suas ancestralidades e assim transmitirem de geração em geração. Para se proteger era necessário camuflar as crenças aos olhos dos exploradores e nisto confundir até mesmo a Igreja através dos santos do cristianismo. Essa miscelânea étnica possibilitou sincretismos religiosos que se relacionam fortemente com ramificações milenares advindas da sabedoria africana.

O Candomblé, uma palavra de berço baiano que se popularizou no Brasil, é uma religião originalmente africana que segundo Nei Lopes (2005) consolidou-se majoritariamente na Bahia e na Região Sudeste devido a aproximação do Brasil com o Golfo da Guiné que levou ao número alto de iorubás, principalmente os originários do Reino de Ketu. E diferentemente do que ocorre nas religiões hegemônicas não há registro escrito oficial nas religiões africanas, pois todo o seu aparato tecnológico foi e continua sendo transmitido essencialmente por via oral. E isso é substancialmente incrível. Acabamos de esbarrar no primeiro tópico motivador deste texto. Investigar a mitologia que sustenta os fundamentos desta manifestação é mergulhar em um oceano fantástico de conhecimentos atemporais e de ciclos sofisticados que envolvem a manutenção do macro e do microcosmo que vivemos em seus diferentes planos.

Conforme cita Reis (2018), o Candomblé é fundamentado na crença nos orixás, que são divindades africanas. Cada orixá pode representar um elemento da natureza – cachoeira, mar, floresta, raios e tempestades, pedreiras. Além disso, também carregam atributos e personalidades distintas. Alguns são violentos, guerreiros, outros maternais ou desbravadores. Eles são os guardiões dos humanos que praticam o Candomblé. Os orixás foram ancestrais divinizados em um momento chave de suas vidas, seja na morte ou durante um rompante profundo de raiva ou arrependimento. Na África acredita-se que as pessoas descendem dos orixás.

o axé é a energia espiritual que está contida em cada objeto, animal, indivíduo ou força da natureza e circula entre todos eles. O axé é a ligação entre os elementos existentes entre o Orum e o Aiê. Orum, por sua vez compreende o plano espiritual e o Aiê corresponde a materialidade que compartilhamos; o plano físico.”

Os rituais sagrados que compõem o esqueleto de adoração dos praticantes de Candomblé tem como finalidade a obtenção do “axé”. Segundo Reis (2018), o axé é a energia espiritual que está contida em cada objeto, animal, indivíduo ou força da natureza e circula entre todos eles. O axé é a ligação entre os elementos existentes entre o Orum e o Aiê. Orum, por sua vez compreende o plano espiritual e o Aiê corresponde a materialidade que compartilhamos; o plano físico.

Conhecer o Candomblé permite esclarecer diversos temas deturpados dissimuladamente por organizações historicamente opressoras e por pessoas igualmente contaminadas. Quanto tempo levou pra você saber e se encantar com Exú, o orixá da comunicação, da paciência, da ordem e da disciplina. O guardião das aldeias, cidades, casas e do axé, das coisas que são feitas e do comportamento humano? Quanto tempo levou pra você descobrir que macumbaé na verdade um instrumento de percussão de origem africana utilizado nos terreiros que passou a referir também às oferendas religiosas, por conta do já discorrido preconceito contra as religiões de matrizes africanas? Quanto tempo levou pra você constatar que esse maniqueísmo tão explorado em religiões hegemônicas, que fundamentam os seus discursos segregacionistas na coação sistemática através da iminência de punição, inexiste no Candomblé? Conforme posto em linhas anteriores a mitologia africana compreende a capacidade de fluidez, a diversidade e singularidade das emoções, até mesmo de suas divindades. Logo, admite a humanidade da sua forma mais crua à sua linha mais sublime, incluindo todas as ramificações.

Dissertar sobre o afeto a partir das perspectivas ancestrais da mitologia dos orixás é conceber primordialmente uma manifestação riquíssima e transmitida através da oralidade. Este fenômeno por si só já reflete o fundamento valoroso necessário para sua manutenção. Beth Marcuschi traz um conceito de oralidade que transcende a materialidade da fala e se relaciona com a viabilização efetiva de afeição. Acrescenta que a ação envolve uma linguagem de sujeitos ativos e responsivos em contextos interacionais diversos e registros de linguagem variados.

Assim, em contextos socioculturais específicos, a fala associada a seu ritmo, entonação, volume e entrelaçada a múltiplas linguagens, como a gestualidade, a mímica, a imagem, ainda que não se manifeste verbalmente e até à modalidade escrita da língua, podem influenciar significativamente o seu interlocutor. – Beth Marcuschi

Por afeto podemos considerar, conforme definições gerais, que se trata de sentimento de imenso carinho que se tem por alguém ou por algum animal; amizade. Sentimento e emoção que se manifestam de muitos modos; Que possui ou demonstra dedicação ou afeição por; devotado.

O Candomblé se organiza através de hierarquias bem definidas e os seus saberes são ramificados em uma espécie de organograma que respeita determinada ordem. A permanência e o êxito dos praticantes na religião, especialmente dos iniciados, depende necessariamente de uma apurada escuta ativa linkada a um profundo respeito a toda a estrutura considerada sagrada pelos candomblecistas. Através da oralidade se transmite além da sabedoria objetiva, os conceitos subjetivos inerentes a cada narrativa. Possibilitando assim uma troca contínua de informações, relações, percepções e vivências que fortalecem a mecânica do ganha-ganha e do ajuste oportuno de causalidades. Temos aqui um motor voraz de afeto energizado pela transcendente mitologia ancestral da Mãe África.

Determinadas ciências tendem a levantar suspeições sobre os saberes africanos por se basearem em mitologia. Contestam, inclusive, por não haver escrituras discorrendo sobre as infinitas passagens mitológicas ancestrais. Conforme Everaldo Rocha (1996), o mito “é uma forma de as sociedades espelharem suas contradições, exprimirem seus paradoxos, dúvidas e inquietações”. O dicionário Houaiss acrescenta que se trata de: “relato fantástico de tradição oral, geralmente protagonizado por seres que encarnam, sob forma simbólica, as forças da natureza e os aspectos gerais da condição humana; lenda, fábula, mitologia”. A interpretação de Rocha (1996) sobre a veracidade dos dizeres mitológicos traz que sua importância e relevância dentro das comunidades independe disso:

Aqui o aspecto principal é que, embora o mito possa não ser a verdade, isto não quer dizer que seja sem valor. A eficácia do mito e não a verdade é que deve ser o critério para pensá-lo. O mito pode ser efetivo e, portanto, verdadeiro como estímulo forte para conduzir tanto o pensamento quanto o comportamento do ser humano ao lidar com realidades existenciais importantes. (Rocha: 1996, p. 3-4)
Como resume Juana Elbein (2012), “A palavra é atuante, porque é condutora do poder do àse”. É através da oralidade que o axé se multiplica e transforma, concretizando formulações e/ou reformulações intramateriais. Assim reforço que é a partir da interação que os cultos germinam e frutificam. Por esta razão é evidente que não se trata de uma religião que possa ser praticada de forma solitária, apesar de trabalhar também consideravelmente as individualidades; o afeto para consigo mesmo, a manutenção do seu próprio axé; e assim confluir. Tem a ver com o sentido de aceitabilidade. A propósito, até temas normalmente tabus em religiões hegemônicas, como a homossexualidade por exemplo, são amplamente acolhidos no Candomblé .

Continua…

Publicado por DÁFRICA

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