Para entender melhor, leia também a primeira parte em Candomblé, Mitologia Africana e Afeto

A sacralidade é dominante nas diversas camadas que compõem os rituais de culto à religiões de matriz africana. E por se tratar de um continente é natural que existam ramificações distintas de religiosidade. O Candomblé que se pratica majoritariamente em nossa região, e por essa razão o escolhido para objeto de análise, não resume a África e sua religiosidade. A manutenção do Candomblé em terras brasileiras é originária de um território específico (Povo de Ketu,conforme já exposto). Existem na atualidade centenas de orixás já catalogados. No Brasil, o Candomblé difundiu pelo menos doze deles. E repetimos que as suas características humanas, além de passearem por virtudes e defeitos; podem ser vaidosos, temperamentais, ciumentos, maternais, e por aí vai… carregam atributos que possuem predominantemente um paralelo com o meio ambiente. Por esta razão é indiscutível o zelo criterioso que religiões de matrizes africanas empreendem em favor dos recursos naturais.
Logo, o presente texto costura outra relação dos praticantes de manifestações religiosas africanas que pode ser explicada pelo afeto. Arrisco dizer que estaríamos em uma situação bem diferente no que diz respeito ao clima se tivéssemos uma hegemonia espiritual africana. A mitologia relaciona nossa existência à integralidade dos recursos naturais. A sua exploração deve antever o tempo e o ciclo natural da atmosfera habitada. É notória a presença do conceito de sustentabilidade. A sabedoria ancestral destes praticantes reconhecem e veneram o poder de cada elemento natural que entra em contato conosco. O axé presente nas estruturas repercute em nossa realidade a depender do modo em que se dê estas interações. O mesmo ocorre com os animais não humanos. Muito se discutiu recentemente sobre o abate de animais em cultos religiosos julgado como constitucional pelo STF. Ancorado pela comunidade vegana, diversas narrativas foram propagadas com o intuito de criminalizar o ato. Para efeito, o autor deste texto confidencia que não ingere alimentos com processamento animal em sua produção e flerta consideravelmente com o movimento vegano. Contudo, não se pode correlacionar nem de muito longe o trato aplicado a um animal em rituais religiosos africanos com o modelo capitalista de exploração. Visto que no segundo identifica-se uma estrutura de devastação frente aos recursos ambientais e humanos. São contextos completamente distintos e desproporcionais (o blog trará mais a frente impressões sobre o veganismo negro e as religiões de matriz africana).
Qualquer pesquisa superficial ao tema evidencia o pré-requisito empregado pelas manifestações ancestrais africanas em cada contexto específico de interação com animais: o profundo respeito. É reverenciado o valor e o axé presente em cada unidade viva. É fermentada a relação de afeto e as interseções provenientes destas. Se associa diretamente com o sentido de devoção e a ligação entre o Orum e o Ayê. A tradição de caráter anímica (ter por base a anima – alma – da natureza) empreendem oferendas que podem incluir não somente animais, como também vegetais e minerais, cânticos, danças e vestes especiais que são ofertadas em sinal de homenagens regulares aos orixás. Aliás, durante o período do debate no STF diversos representantes religiosos expuseram de maneira didática as contexturas ritualísticas, em especial, aquelas que envolvem os animais não humanos. Como interferir na base da canetada em uma tradição sagrada, continental e cultuada por milênios? Não era difícil identificar que os referidos discursos contraditórios tinham muito mais a ver com o racismo do que com qualquer outra coisa.
Conforme já foi discorrido algumas vezes, os orixás carregam características análogas aos humanos, pois assemelham-se através de emoções, como: raiva, ciúmes, amor em excesso, soberba e etc. Isso significa que podemos usar inúmeros contextos para falar sobre a mitologia africana que vão além do afeto. Os mitos discorrem variadas contexturas e as suas repercussões. Reis (2018) traz em sua pesquisa alguns exemplos do livro “Mitologia dos Orixás” de Reginaldo Prendi (2013) que ilustra num deles a fúria e a dissimulação de Oxum ao disputar a atenção e o amor de Xangô com a guerreira Obá. Ou seja, além da beleza física, o lado maternal e aparente fragilidade usualmente atribuídas, Oxum também cultiva um lado egoísta que pensa e provoca maldades priorizando unicamente seu bem-estar individual (Reis, 2018). Esses fatos aproximam ainda mais, na humilde visão deste que vos escreve, os praticantes de suas divindades. Pois centralizam o caráter primaz de nossa existência passional gerando até certo nível uma provável identificação.
Por esta razão faz ainda mais sentido utilizar o afeto como matriz para discorrer sobre a mitologia africana. Visto que este desponta como elo predominante de ligação fortificado em cada nuance de sua manifestação. É preciso dar o reconhecimento merecido a essa singular manifestação de transcendências tão apuradas que se baseiam na oralidade para serem transmitidas. Ainda marginalizadas e perseguidas, as religiões de matrizes africanas condensam saberes milenares e atemporais de convívio sustentável em comunidade. Tem muito a ensinar a nossa contemporaneidade. Conhecer as suas particularidades confere não só justiça intelectual, mas também emancipação social aos seus praticantes. Falar de África é falar genuinamente de berço. Durante muito tempo o esforço exercido pela sociedade em geral para associar africanos, afrodescendentes e suas respectivas culturas aos sentimentos raivosos, dissimulativos e a maldade inata gerou um genocídio que reverbera até hoje. Negaram capacidades cognitivas, intelectuais e criativas apagando da história o que puderam e modificando aos seus olhos o que não puderam. Felizmente, apesar de todos os pesares, a história sempre se mantém viva enquanto a honestidade pulsa nos gritos de liberdade.
Por envolver essencialmente a oralidade  e o ingresso aos preciosos saberes ancestrais fincados nos cultos à religiosidade exigirem um preparo prévio; uma iniciação, os preceitos não estão facilmente dispostos para todos. O que a meu ver contribui para a unidade de crenças e solubilidade das suas implicações. Fazer parte exige confiança, paciência e entrega. O Candomblé é tranquilamente um sinônimo para falar de afeto. Além de tudo que já foi citado anteriormente, apesar do contexto hostil, não há sequer dedicação para deslegitimar qualquer outra manifestação religiosa. O Candomblé é sobre existir em sincronicidade.
O texto se aproxima do fim estimando, no mínimo, uma provocação no prezado leitor. É evidente não ser possível condensar aqui as inúmeras correlações que este ensaio pode formular. Deste modo, a proposta é trazer futuros compilados a partir de óticas distintas, contudo, conectadas que possam dar ainda mais luz a nossa ancestralidade com dedicação máxima para percorrer o caminho justo da história. Em tempo, vale sinalizar que as linhas supracitadas durante toda a seção não surgem a partir de fatos empíricos, mas sim de leituras e audições acerca do tema. Por esta razão ratifico o espaço aberto para qualquer adendo ou correção referente a algum ponto apresentado. Evoé irmãos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS*

*AS REFERÊNCIAS QUE SEGUEM FORAM EXTRAÍDAS DA INCRÍVEL PESQUISA DE ISABELA REIS TAMBÉM LISTADA ABAIXO. VALE A LEITURA COMPLETA.

LOPES, Nei. Kitábu: o livro do saber e do espírito negro-africano. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2005.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

ROCHA, Everardo. O que é mito. São Paulo: Editora Brasiliense, 1996.

REIS, Isabela Oliveira. OXUM E O MITO DA FRAGILIDADE FEMININA. Rio de Janeiro. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS ESCOLA DE COMUNICAÇÃO. 2018

SANTOS, Juana Elbein dos. Os Nàgô e a morte: Pàde, Àsèsè e o culto Égun na Bahia.
Tradução pela Universidade Federal da Bahia. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.

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