“Você acredita que a Mangueira fez homenagem para a Marielle? E tinha uns heróis que eu nunca ouvi falar. Tudo negro e índio. Militar que é bom, nada. Uma pouca vergonha!”

Diário, hoje eu estava com insônia e liguei a televisão. O que estava passando? O desfile das escolas de samba do Rio. E, para meu azar, quem entrou na avenida foi justo a Mangueira. Você acredita que os caras fizeram uma homenagem para a Marielle? E tinha uns heróis que eu nunca ouvi falar. Tudo negro e índio. Militar que é bom, nada. Uma pouca vergonha! Era melhor quando só tinha mulher pelada.
Bom, desisti de ver aquele desfile de horrores, tomei um remédio e fui dormir. Mas aí aconteceu uma coisa maluca: sonhei que uma escola de samba fazia um desfile sobre mim!
A Comissão de Frente era linda! Formada só pelos nossos ditadores militares. Desde o Castelo Branco até Geisel. Eles cumprimentavam o pessoal das arquibancadas tirando o quepe com uma mão e estalando o chicote com a outra. Quase chorei.
O carro abre-alas era uma mão gigantesca fazendo revolvinho. Ela girava 360 graus e atirava confete, serpentina e bala de verdade. Mas só matava quem vestia camisa vermelha.
Logo atrás vinha a ala “Slogan acima de tudo”. O destaque era o Vélez, numa fantasia feita só com fotos do Olavo de Carvalho. Em volta dele dançavam umas crianças de uniforme escolar e elas tiravam selfies o tempo todo.
O mestre sala e a porta-bandeira eram o Ricardo Salles e a Damares. Os dois estavam de índios. Ele com penas azuis, ela, com penas rosas. Em vez de cetro o Ricardo segurava uma motosserra. E no estandarte da Damares estava escrita aquela frase dela: “Feministas não gostam de homens porque são feias”.
A ala das baianas tinha fantasias muito criativas: as saias eram gigantescas metades de laranja. Uma das baianas era o Queiroz. E ele dançava direitinho (também, depois de ensaiar tanto lá no Einstein…).
A ala da Reforma da Previdência estava muito bonita. Velhos em farrapos sambavam se arrastando pelo chão. E Paulo Guedes, de terno dourado, sambava no meio deles.
Fez muito sucesso um carro alegórico com uma goiabeira gigante. Vários Jesuses dançavam nos galhos e de vez em quando saiam umas pessoas de dentro das frutas, fazendo papel de bichinhos de goiaba.
O Onyx usava uma fantasia de liquidificador. E a do Moro era uma enorme caixa com o número 2.
Depois veio a ala “Três Patetas”. O Carluxo, fantasiado de pit bull, sambava cercado por um monte de gente com máscara de Bebianno. E tentava morder eles. Em volta do Eduardo vinham uns anões fantasiados de pintinho (acho que sonhei isso porque aquela ex-namorada disse que ele tinha micropênis). E o Flávio vestia um envelope gigante.
A ala dos milicianos estava toda em vermelho sangue. Um luxo!
A bateria era nota dez! Os tamborins foram feitos com peles de guerrilheiros torturados. E os tambores eram crânios de pessoas assassinadas pela ditadura militar. Que som! O mestre da bateria era o Coronel Lício, que matou e torturou no Araguaia. Fico arrepiado só de lembrar.
Logo depois veio a ala mais importante, que se chamava “Quando crescer quero ser igual a você”. Ela trazia os meus três ídolos.
O Ustra, usando aqueles óculos escuros que deixavam ele parecido com a Aracy de Almeida, entrou dançando no meio de cinquenta esqueletos, um para cada pessoa que ele matou.
O Pinochet veio cercado por homens cobertos por folhas de fax, todas com o texto que eu mandei para o Tony Blair, pedindo que ele soltasse o Augustinho.
E então entrou o Stroessner, que esses dias eu chamei de “estadista de visão”. Ele usava uma fantasia de uísque falsificado (o rótulo dizia Joni Ualquer) e estava cercado de meninas de dez anos, porque todo mundo sabe que ele era pedófilo.
No final de tudo, encerrando o desfile, vinha quem? Eu! Dançando e fazendo revolvinho com as mãos. Aí a multidão enlouqueceu e começou a gritar: “Monstro!, monstro!, monstro!”. Mas no bom sentido, é claro.
Ah, Diário, sonhei que estava sonhando um sonho sonhado…
Pena que agora estou acordado.

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