Estamos dando início a esta série de escritos sobre a anti-maçonaria, numa forma de mostrar ao público interessado em conhecer a História da Ordem Maçônica, dentro de uma perspectiva de que só podemos compreender determinadas coisas, se a conhecermos também nos aspectos negativos e analisando o que é fato e o que foi inventado.

         A primeira etapa será a reprodução integral, embora que de forma seccionada de uma obra que reputamos como referência séria para quem pretende também de forma séria, estudar as particularidades históricas da Maçonaria.

Estamos falando do trabalho de Luiz Mário Ferreira Costa, que numa alentada análise de uma obra antimaçônica, revelou detalhes antes desconhecidos dos próprios maçons. Portanto, mãos à obra em nossos estudos:

Maçonaria e Antimaçonaria: Uma análise da “História secreta do Brasil” de Gustavo Barroso

(Primeira Peça)

Introdução

O objetivo geral da dissertação é analisar as narrativas antimaçônicas difundidas no Brasil, particularmente, na primeira metade do século XX, com destaque para a História Secreta do Brasil (1937) escrita por Gustavo Barroso (1888 – 1959) e considerada por muitos como a obra de maior notabilidade neste sentido.

Seguindo a perspectiva aberta por Raoul Girardet, podemos afirmar que nossa análise não se restringirá somente ao exame do pensamento organizado e racionalmente construído. Ao contrário, nosso esforço deverá ser visto como tentativa de explorar as categorias míticas que também compõem o imaginário político. Deste modo, buscaremos identificar efervescências mitológicas acompanhadas de perturbações políticas que apareceram no Brasil na primeira metade do século XX. (GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 49.)

Naquilo que se refere à difusão do tema, é importante ressaltar que por décadas produziu-se uma vasta literatura marcada pelos “abusos” tanto por parte dos maçons quanto do lado dos antimaçons, passando da exaltação exagerada até às acusações mais descabidas. O resultado foi que muitos historiadores acadêmicos acabaram por concluir que toda a temática parecia infame evitando um contato mais íntimo com este objeto.

Entretanto, apesar de ainda pouco conhecida e estudada, é possível perceber que a partir dos anos 1980 a história da Maçonaria tem chamado mais a atenção tanto de historiadores nacionais quanto internacionais. Este novo fôlego deve-se, sobretudo, à renovação da história política, que passou a se preocupar com questões como: sociabilidades, linguagens e conceitos políticos, imaginários, culturas políticas, dentre outros. Em grande medida, o estudo do fenômeno maçônico foi oxigenado com a incorporação de contribuições da sociologia, da antropologia, da literatura e da ciência política o que despertou novamente o interesse dos historiadores. O melhor exemplo foi a incorporação da noção de sociabilidade, revigorada desde 1966 em Pénitents et francs-maçons de l’ancienne Provence: essai sur la sociabilité méridionale de Maurice Agulhon, que transformou o conceito de sociabilidade em uma categoria operacional e fecunda no estudo do fenômeno maçônico. (AGULHON, Maurice. Pénitents et francs-maçons de l’ancienne Provence: essai sur la sociabilité méridionale. 3.ed. Paris: Fayard, 1984. p. 357 – 367.)

Deste modo, passou-se a preconizar a Maçonaria como um espaço de articulação política, mas também como “escola de formação e práticas políticas”, para usar a expressão de Margaret Jacob, na qual as regras do constitucionalismo inglês foram aprendidas, divulgadas e vivenciadas. ( JACOB, Margaret C. Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe. New York: Oxford University Press, 1991.)

Alguns historiadores seguiram por este caminho e diversificaram ainda mais as possibilidades de olhares sobre a Maçonaria.

No que se refere à historiografia brasileira, os trabalhos de Célia M. Marinho de Azevedo, Eliane Moura Silva, Eliane Lúcia Colussi, Marco Morel, Luiz Eugênio Véscio, Alexandre Mansur Barata, Françoise Jean de Oliveira Souza, dentre outros, são exemplos importantes desse esforço de renovação da compreensão da história da Maçonaria no Brasil. (Ver: AZEVEDO, Célia M. M. de. Maçonaria: história e historiografia. São Paulo. Revista USP, n.32, 1996-97, p. 178-189; SILVA, Eliane Moura. Maçonaria, anticlericalismo e livre pensamento no Brasil (1901-1909). Comunicação apresentada no XIX Simpósio Nacional de História – ANPUH. Belo Horizonte, 1997; COLUSSI, Eliane Lúcia. A Maçonaria Gaúcha no Século XIX. 2. ed. Passo Fundo: Editora UPF. 2000; MOREL, Marco. Sociabilidades entre Luzes e Sombras: apontamentos para o estudo histórico das maçonarias da primeira metade do século XIX. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, n. 28, ano 2001/2; VÉSCIO, Luiz Eugênio. O crime do Padre Sório: Maçonaria e Igreja Católica no Rio Grande do Sul (1893-1928). Santa Maria: EDUFSM, Porto Alegre: EDUFRGS, 2001; BARATA, Alexandre M. Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada & Independência do Brasil (1790 – 1822). Juiz de Fora: Ed. UFJF; São Paulo: Annablume, 2006; MOREL, Marco & SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. O poder da Maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008)

Recentemente, Marco Morel e Françoise Jean de Oliveira Souza produziram um importante estudo sobre a atuação da Maçonaria nos principais momentos históricos nacionais, intitulado de O Poder da Maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil. Questões como a participação na Independência, as divergências e cisões internas, a luta contra a Igreja Católica, a participação ativa na primeira República e a atuação da Maçonaria na política contemporânea, são alguns pontos analisados nesta obra. (MOREL, Marco & SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. (op.cit)

Não obstante, a ampliação da investigação historiográfica acerca da Maçonaria possibilitou ao historiador reconhecer que em paralelo à história da Ordem maçônica, corre também uma história das narrativas antimaçônicas. Para Girardet, estas narrativas surgiram da associação feita entre a Maçonaria e a ideia de “Conspiração”, uma característica peculiar das sociedades que vivenciam ou vivenciaram momentos conturbados de crise e de grande tensão social. Assim, a temática do complô e a função tática que lhe foi atribuída receberão um destaque importante nesta dissertação, uma vez que entendemos, por exemplo, que do terror jacobino ao terror stalinista, a acusação de “conspiração” não cessou de ser utilizada pelo poder estabelecido para livrar-se de seus suspeitos ou de seus opositores e com isso legitimar os expurgos e as exclusões, bem como para camuflar suas próprias falhas e seus próprios fracassos. Numa realidade co-produzida “a lógica da manipulação se vê substituindo a imprevisibilidade da história.” (GIRARDET, Raoul. (op.cit), p. 33)

Quanto à construção do mito da conspiração, o autor destaca três tipos diferentes de narrativas onde a ideia do complô se faz presente. A primeira forma refere-se ao “complô judaico”, identificado pela “profecia do velho rabino diante de seus companheiros”. A profecia tratava de um plano metódico de conquista do mundo, realizado pelo povo de Israel contra o resto da humanidade. (Idem, p. 35.)

Na segunda teoria conspiratória, eram os jesuítas que planejavam dominar o mundo. Assim, como analisou Girardet, o princípio essencial sobre o qual repousava o temível poder da Companhia de Jesus era “a traição no lar, a mulher espiã do marido, a criança, da mãe… (Idem, p. 37.)

Entretanto para esta pesquisa torna-se mais importante tomar como referência a terceira narrativa denominada por Girardet como mito da “conspiração maçônica”, cujo exemplo maior foi o abade francês Augustin de Barruel. (GIRARDET, Raoul. (op.cit), p. 32)

Continuaremos…

Anúncios