A mentalidade que deu origem ao pensamento maçônico – tal como ele surgiu e ganhou corpo no início do século XVII – é, claramente, uma obra de pensadores místicos, de mentalidade reformista, que surgiram durante o século XIV, fortaleceu-se durante o século XV e finalmente amadureceu e se tornou uma verdadeira escola durante o século XVI.

Foi produto da desintegração da influência que a Igreja Católica manteve sobre o pensamento europeu durante toda a Idade Média e da própria perda de poder político dos seus líderes em razão da sua própria corrupção.
É um processo que começou com os conflitos que opuseram os papas contra os monarcas das diversas nações europeias logo após o término das Cruzadas, conflitos esses que tinham como origem uma clara disputa de poder. Nota:Um dos episódios mais característicos desses conflitos foi o que opôs o Papa Bonifácio VIII e o rei da França, Filipe o Belo, e depois o sucessor desse Papa, Clemente V, que resultou inclusive na supressão da Ordem dos Templários e execução dos seus líderes, queimados como hereges. A Maçonaria, muito a propósito, iria utilizar esse episódio como sendo uma fonte das suas tradições.
Já nessa época, uma plêiade de intelectuais e artistas começavam a ensaiar o nascimento de uma tendência cultural, que dois séculos mais tarde iria abastecer os dois grandes rios do pensamento moderno, que foram a Reforma Protestante e a Renascença. NOTA: Entre estes intelectuais podemos citar Roger Bacon, Dante Alighieri e Petrarca. O primeiro destacou-se como filósofo naturalista e alquimista, precursor do método cientifico de observação dos fenômenos naturais. Dante é o autor do famoso poema “A Divina Comédia”, obra prima de simbolismo e carregada de conceitos e visões gnósticas. Petrarca foi um dos mais ácidos críticos da corrupção existente na Igreja Católica, sendo um dos maiores inspiradores do monge Martinho Lutero na sua rebelião contra o Vaticano. Não é sem razão as alusões e as invocações que alguns ritos maçônicos fazem ao trabalho desses intelectuais.
Embora essa afirmação possa ser contradita por vários exemplos históricos, inclusive bem documentados, para nós não resta dúvida que a Maçonaria moderna é, sem sombra de dúvida, como bem viu Marius Lepage, um episódio da Reforma. Quer dizer, não que ela tenha nascido a partir da Reforma Protestante, mas sim que aproveitou o ímpeto reformista para se transformar num movimento filosófico e político de carácter mundial (Jean Palou – A Maçonaria Simbólica e Iniciática, São Paulo, 1964).
Esta transformação aconteceu tomando por base a tradição das antigas guildas de profissionais medievais – em particular os construtores de edifícios sacros -, fundindo-a com o pensamento rosacruciano que encantou os intelectuais no inicio do século XVI NOTA: Esta visão foi muito bem formulada por Francês Yates nas suas excelentes obras , “Giordano Bruno e a Tradição Hermética” e o “Iluminismo Rosacruz“, ambas publicadas no Brasil pela Ed. Cultrix..
Quase nada se sabe sobre a antiga Maçonaria, dita Operativa. O pouco que resta dessa antiga prática iniciática e corporativa são alguns fragmentos de documentos relatando as tradições e os costumes desses antigos maçons que construíam igrejas e outros edifícios de finalidade sacra, com um ardor e um espírito quase religioso NOTA: As chamadas Old Charges, conjunto de manuscritos que relatam as práticas dos antigos profissionais de construção da Idade Média e início da Idade Moderna, os quais foram adaptados para os rituais praticados na Maçonaria moderna..
A acreditar-se em Fulcanelli, e também René Guénon, o maçom medieval era um iniciado, que muito além da sua fé no credo católico, vivia num mundo de magia e misticismo, que ele tentava reproduzir na sua profissão, elevando-a à categoria de Arte do espirito, tanto quanto o era a alquimia. NOTA: Fulcanelli- O Mistério das Catedrais, Lisboa, 1956. René Guénon – Aperçus sur l’initiation – Paris 1956. Segundo estes autores, a arquitetura medieval, tal como a alquimia, seria uma espécie de prática ascética que além de buscar resultados práticos nos seus respectivos campos de atuação – a construção de edifícios sacros e a manipulação química dos minerais – proporcionaria ao seu operador uma forma de preparar os seus próprios espíritos para uma ascese (iluminação), que segundo a Igreja, só podia ser obtida através da prática da doutrina cristã, orientada pela Igreja católica.
Destarte, a arquitetura medieval, tal como a alquimia, seria uma espécie de prática ascética que além de buscar resultados práticos nos seus respectivos campos de atuação – a construção de edifícios sacros e a manipulação química dos minerais – proporcionaria ao seu operador uma forma de preparar os seus próprios espíritos para uma ascese (iluminação), que segundo a Igreja, só podia ser obtida através da prática da doutrina cristã, orientada pela Igreja católica. Santo só quem fosse católico e perfeito na prática das virtudes teologais.
Iluminação, reforma espiritual, conhecimento para além do racionalismo científico e da mera especulação filosófica tomista ( doutrina de São Tomás de Aquino), e a derrubada de todos os dogmas religiosos que aprisionavam o espírito humano, foi a grande promessa dos Irmãos Rosacruzes, que no início do século XVI, concomitante com a verdadeira revolução à que a rebelião de Martinho Lutero deu início, viriam a provocar uma verdadeira febre de misticismo e um enorme anseio de liberdade de pensamento por toda a Europa.
É deste caldo cultural que nasceria a Maçonaria que nós chamamos de moderna, pois ela, sobre o manto da antiga prática dos maçons medievais, criou uma estrutura completamente nova, que se não pode ser chamada de religião, pelo menos constitui uma prática para religiosa que incomoda muito (ainda hoje) as chamadas religiões oficiais, que nela vêem fumos de heresia e conspiração, tal como no inicio da Reforma Protestante, todo grupo que manifestasse simpatia pela nova tendência de pensamento era carimbada com essa pecha.
NOTA: Os chamados Manifestos Rosacruzes (Fama Fraternitatis, 1614; Confessio Fraternitatis, 1615 e Núpcias Químicas de Christian Rosencreutz,1616) contribuíram muito para que os movimentos de tendência mística adquirissem essa aura de heresia e conspiração, pois atacavam com muita virulência a doutrina católica e pregavam transformações que misturavam temas de carácter religioso e político que incomodavam as autoridades civis e eclesiásticas. Vide, a este respeito, a excelente obra de Francis Yates, O Iluminismo Rosacruz, acima citada.

Autor: João Anatalino Rodrigues

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