Ecoou há poucos dias um rugido vindo da Casa Grande através de um de seus representantes, um procurador do MP-MG, chamado Leonardo Azeredo, segundo o mesmo, não é oriundo de camadas mais pobres, ou seja não veio da senzala, do sistema de cotas e nem passou pela meritocracia que a burguesia atual tanto defende, mas que se mostrou insatisfeito com os seus míseros 24 mil reais de salário e seus 8 mil reais de cartão de crédito. Ponto para democracia, que traz com ela a liberdade de expressão, o procurador está no seu direito legal de reivindicar algo que julga incorreto, mas que do ponto de vista moral ele se mostrou um legitimo representante da Casa Grande.

Cabe lembrar que representar a Casa Grande não significa necessariamente ser membro da Casa Grande, há uma diferença muito grande entre elite econômica e classe dominante e não necessariamente um grupo faz parte do outro, o procurador faz parte de um grupo de classe dominante, servidor público, a serviço do Estado, para representar os interesses da Casa Grande, fico a imaginar processos que passam por suas mãos, a parcialidade e a legalidade jurídica entre ricos e pobres. Os interesses que possam pesar sobre suas mãos.

A população que se queixa do “miserê” do procurador e eu me questiono, seria por que é um absurdo um procurador receber 24 mil? Seria por que a maioria da população não ganha isso e ela está indignada? Ou por que a Senzala, que não tem representantes e também queria ganhar 24 mil e não ganha isso? Me questiono não para defender o procurador, mas como historiador, cidadão, democraticamente no direito de questionar, porque uma parcela considerável da população, pobre, da senzala, aprova projetos da elite econômica, como a reforma trabalhista, lei da terceirização, reforma da previdência, critica negativamente seu sindicato, andando na contramão do sistema.

O Procurador Leonardo Azeredo, ele representa um projeto de Brasil, branco, dos olhos azuis, que na posição estratégica de classe dominante sente-se injustiçado pelo sistema, assim como a atriz Maitê Proença que goza dos mesmos privilégios e há muito tempo, e ainda como pensionista.

O mesmo povo que critica o procurador deve sim fazer uma reflexão, sobre qual projeto de país quer. Os 24 mil não são valores financeiros, são valores éticos, morais. É o mesmo povo que critica um modelo de cotas, não pela meritocracia, ela critica um modelo que “universaliza” a universidade, coloca brancos e negros na mesma turma, ricos e pobres, um procurador que não quer viajar no avião ao lado de pobre, de negro, de nordestino, que não quer esbarrar com essa gente no aeroporto.

O povo que pede CPI lava toga não se manifestou contra o procurador, não houve dancinha do impeachment contra o procurador, não apareceu o povo que reclamava de crise e que quer viajar novamente para Disney; ou o cidadão que no seu legitimo direito democrático reclamava aos berros em um posto de gasolina o valor do combustível. E sabe por que não aparecerem? Por que esses estão casados com o projeto ao qual o procurador também está, de acomodar as mordomias da Casa Grande. Eles são do mesmo grupo.

Tá, mas e a galera dos 20 centavos que está no titulo do texto? Essa galera foi embevecida pela elite econômica, que por sinal comprou os interesses das classes mais simples da população no tocante mais individual, mais intimo, o lado fraternal, o seio familiar. Vendeu um projeto onde haviam entrelinhas, dentro do discurso anti-corrupção, em prol da família, dos bons costumes, anestesiou no tocante as leis trabalhistas e o quanto seus prejuízos aos trabalhadores podem impactar no seio familiar.

Os 20 centavos foram um eco da senzala, pois a Casa Grande nunca precisou usar ônibus ou metrô; os 20 centavos, foi uma resposta da casa grande de jogar milho para os pombos, ou a pegadinha da carteira amarrada em uma linha. A classe mais desfavorecida acolheu e o golpe veio depois; portanto não são 24 mil, não são 20 centavos, foi um susto de 13 anos, numa brecha de 500 anos de colonialismo, de uma elite econômica, que se utiliza da classe dominante, para sugar da maior parte da população ignorante uma ideia de país progressista, que não percebeu o apartheid social que existe no Brasil. Um sistema de casta velada, de uma elite econômica que fala português no Brasil com sotaque e que jamais permitirá a ascensão das classes mais pobres ao mínimo de dignidade ao poder.

Continuarão prendendo sem provas e jogando ainda mais os mais pobres , pretos e periféricos , às margens do sistema. No momento em que 20 centavos, valem mais que 24 mil, é preciso mostrar e apresentar o teatro de horrores da Casa Grande para a Senzala e fazer dela um projeto progressista. Não que anule a Casa Grande, mas que ao menos divida em partes iguais as fatias do bolo e dê voz, vez e lugar a maior parcela da população, os mais pobres e menos favorecidos…

Vítor Andrade
*Professor de História
Diretor do SINPROEP- DF
Secretário geral da Fetraepp
CUT – DF

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