Os sentidos nunca são simples. As palavras sempre exigem uma interpretação. Por exemplo: – isso não é uma “reforma” é um assalto aos pobres.

Quando o último texto publicado aqui foi compartilhado no facebook, um leitor perguntou o que eu queria dizer com “falta de cultura” e com “enviesados” (que saiu com Z…). Respondi que os sentidos da expressão e da palavra são os correntes. Claro, eu precisaria explicar o que são sentidos “correntes” e, depois, evidentemente, explicar o que são “sentidos”.
Se alguém digitar “Apenas o Adão mítico…” no Google, vai aparecer uma citação de Voloschinov (ou de Bakhtin?), cujo sentido é que todas as palavras, exceto as que Adão empregou pela primeira vez (“me dá essa maçã aí”…), têm seu sentido associado às circunstâncias de sua enunciação e, mais importante, à sua história pregressa, cuja memória nunca é totalmente apagada.
Assim, os sentidos nunca são simples. As palavras sempre exigem uma interpretação (a escolha de um sentido, ou a percepção de que ela é impossível). Além disso, a interpretação pode não coincidir com o que o locutor ou o autor “quis” dizer (observar as aspas). Os problemas de interpretação surgem às vezes onde menos se espera.
Jacqueline Authier-Revuz é certamente a autora que mais bem tratou deste fato. Seus trabalhos mostram diversas facetas da questão. Uma delas tem a ver com a “percepção” (entre aspas) do falante ou autor de que a palavra tem características que a fazem merecer destaque.
Por exemplo, é gíria ou regionalismo, termo técnico, associado a uma doutrina… Em consequência, o autor pode marcar uma distância em relação a elas – para significar que não é uma palavra dele.
Uma forma de fazer isso é colocar as palavras entre aspas. Por exemplo: – ele dormia num “cafofo”; – estão propondo uma “reforma” da Previdência. Outra forma de manter distância é fazer um comentário explícito, como em: – vamos modernizar a legislação, como eles dizem…
Ainda outra é redefinir a palavra: isso não é uma “reforma”, é um assalto contra os mais pobres (e pode ser que alguém pergunte, parafraseando Pilatos: – o que é um “pobre”?).
Authier-Revuz assume que a linguagem científica (um livro de geometria, por exemplo) funciona como se nenhuma palavra fosse problemática. Já os textos tipicamente associados a ideologias (tomadas a sério), como os filosóficos, os sociológicos e os antropológicos, ou explicitam os problemas marcando as palavras, ou adicionam comentários do tipo “para retomar Kant”, “para falar como um capitalista”, “em termos existencialistas”…
Um exemplo adaptado: “falo de classes, no sentido marxista”. O textinho mostra que o locutor de certa forma “sabe” (entre aspas…) que a palavra “classe” tem várias interpretações, desde a do Ibope até a marxista clássica – e quer se dissociar de algumas.
Aparentemente, o problema está controlado. Acontece que não, porque se pode sempre perguntar o que quer dizer “sentido” e em que sentido se está tomando “marxista” (já que há muitos marxismos, incluído o do Olavo).
Chego enfim à pergunta daquele leitor: me dou conta, claro, de que “falta de cultura” pode ser uma enorme gafe, considerados os discursos da antropologia (não há povo sem cultura, é complicado propor que há uma cultura “superior” etc.). A aposta é que o contexto (o do texto e, importante, o do país) ajude a restringir as interpretações possíveis (apelando para o princípio da caridade dos pragmaticistas).
Mas é claro que esta é uma aposta destinada à derrota. Aposto que não se trata de má vontade de ninguém. É que as línguas naturais não são matemática. Além disso, as sociedades são divididas, e uma de suas disputas é a dos bens simbólicos, entre os quais as palavras e os sentidos das palavras.
Se há quem pense que a Venezuela é comunista e que o Haiti é democrático, pode-se esperar de tudo. São um país “comunista” e um “democrático”, respectivamente. No máximo.

Sirio

Fonte: Rede Brasil Atual
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